A guerra de todos nós

War. imagem atribuía ao artista Banksy.

Waldemir Pantoja nasceu em uma casa de madeira cercada por estivas, ali pelo bairro do Barreiro, não muito longe da Ponte do Galo, em uma época já quase esquecida. Foi menino de empinar papagaio de linha encerada, ruim de bola, teve frieira, impingem, curuba, pano branco, verme, caxumba e catapora, como todos nós, nascidos em palafitas.

Quase morreu de febre aos dois anos. Começou a trabalhar cedo na feira, de início a carregar caixas e paneiros.  Depois juntou um dinheirinho e comprou o boi-sem-rabo do Paulo Doido, que havia morrido. Com o frete e muito esforço, mais adiante, conseguiu a tão sonhada barraquinha.

Waldo das Fruta, assim sem plural, como era apelidado, queria mais e trabalhou de sol a sol para chegar aonde chegou. Hoje, quando o mencionam à dona Help, vizinha de barraca dele, finge se lembrar muito pouco.

– Aquele um ali nunca foi flor que se cheire, desde gito. Era péssimo, matava gato na paulada, soltava estrepa-moleque em cachorro. – Ela diz com o lado direito do lábio superior levantado.

– Quando saiu daqui já era homem, se achava melhor porque era porrudo e tinha o olho claro. Agora vê se pode.

Pelo falatório, a vizinhança não ia muito com a cara do Waldo.

O fato é que nem Help, nem os demais, sabiam muito acerca do destino do feirante. A maioria o subestimava e ria da fama de mandão do colega. Ao sumir do Barreiro, quase ninguém sentiu falta. Ouviram por alto dizer que havia ido para Portugal.

– Mas quando já. – Quase ninguém acreditava.

No entanto, ele foi, sim. Além-mar, o feirante trabalhou, fez carretos nos subúrbios de Lisboa, ali pelas bandas de Chelas, naquela primeira leva de brasileiros retirantes, os que conseguiram fugir da tirania testosterônica-narcísica-neoliberal de Collor. Em seguida, ele rumou para o Porto e passou um tempo como atendente de mesa, em Matosinhos, naquele ainda insípido e inicial turismo nortenho. De lá seguiu de trem até a fria fronteira com Espanha, nas frias praias de Vigo. Na época, escreveu uma carta, dessas de papel mesmo, e enviou à mãe. Correspondência extraviada.

Do lado de cá, as coisas mudaram muito. A família Pantoja foi remanejada com as obras da macrodrenagem, o Canal do Galo foi enfim domado pelo concreto. Nasceu, na ilharga da velha feirinha, uma Robalto, os malandros se multiplicaram primeiro para, na entressafra, darem um tempo e cessarem os assaltos na ponte; apareceram novas casas de alvenaria com e sem acabamento, e o asfalto comer as passarelas de madeira podre. Sumiram as estivas como se escafedeu qualquer vestígio de Waldo das Fruta, figura branca como um tapuru, forte como búfalo, brabo como gato maracajá.

Mais de 30 anos e parece que foi ontem.

Por esses dias, dona Help, hoje separada do primeiro marido e avó de seis, sentou-se diante da LG de 43 polegadas comprada no Magalu em suaves prestações, e ficou boquiaberta com o noticiário. Mísseis, refugiados, embaixadores, grandes potências, risco de conflito nuclear, nova edição da Guerra Fria, declarações desastrosas do presidente brasileiro, especialistas em polvorosa no horário nobre pouco antes da novela, comoção com os brancos europeus sob ataque, hiper informação sobre Ucrânia – nenhuma notícia sobre o Iêmen, Somália, Mali, Sudão, Congo. Aquele clima de vai dar merda no ar e todo mundo falando por uma boca só: é a Terceira Guerra Mundial.

Até que Help vira pro namorado novo, Antônio Emerson, que conheceu na vendinha de capas e carregadores de celular.

– Mas olha já onde o desgraçado se meteu. Sempre soube que não prestava. Cachorro que me morda no cu se não é ele. – Soltou, como quem fala para o nada.

O homem não entendeu.

– Isso daí era vizinho nosso e tinha uma barraca defronte da ponte, quando aqui ainda alagava. Pavulagem que só. Sempre foi assim, desse jeitozinho aí, nojento com todo mundo. Tinha o rei na barriga.

– Mas, Help, minha vidazinha linda, esse aí é o presidente da Rússia. Tu tá viajando.

– Deve ter mudado de nome lá pra onde foi. Sumiu daqui faz tempo e achei que morava, agora, ali pelo Paracuri.

– Ah, pronto.

– Só tá mais velho e careca. Mas é ele, sim. Esse olho parado, assim, essa cara sem expressão, assim, é a mesminha.

– Esse carniceiro, tá matando todo mundo. Tomara é que morra.

– Tu não fala assim do Waldo.

– Hum, agora se doeu, foi? Sempre soube, quem desdenha quer comprar.

No que começou uma discussão. Primeiro sobre a identidade de Vladimir Putin/Waldemir Pantonja. Depois, a lenga-lenga de sempre de todo casal: sobre a periguete com quem Antônio Emerson vivia de papo; sobre a limpeza da casa na qual ele nunca ajudava; e ele, por sua vez, sobre o ex-marido dela que vinha em horas impróprias; e o neto que nevou o cabelo e fez tatuagem; e ela, rebateu, sobre filha dele que não queria mais estudar e só vivia no Tiktok; e os dois acerca do relacionamento que tinha esfriado; e ela sobre nunca mais terem saído pra sequer um sorvete; e ele sobre os boletos atrasados; e, os dois ao mesmo tempo sem pausa sem contexto sem direito ao contraditório sem chance ao outro sem respirar, sobre vida toda e todas os episódios miseráveis que viveram desde 2007, quando se conheceram no Porto Solamar ao som de Malandrinha, do Edson Gomes – ‘há muito tempo, eu queria ter um grande amor, como você’.

Até que os dois se cansaram de brigar e cada um virou para seu lado cama.

Ele apagou a luz e dormiu dois segundos depois.

Já Help bufava, ainda, com raiva e cismada. Não com Antônio Emerson. O negócio era o Vladimir ou Waldo ou fosse o nome que tivesse agora. No entanto, não pensou muito. Era sábado e, no dia seguinte, o movimento da feira era grande.

A guerra dela era outra.

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Vá ouvir Malandrinha.

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Publicado originalmente na coluna do Daqui te escrevo, no Dol.


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