No vinho, a verdade; na cerveja, a dúvida

Photo by D A V I D S O N L U N A on Unsplash

O porteiro me olhou desconfiado de dentro da cabine e atendeu o interfone. Pediu para esperar sem me deixar entrar pro primeiro compartimento do hall, apesar da chuva. Depois de uns cinco minutos, eu já quase ensopado, autorizou. Por coincidência, o irmão dela estava no elevador quando entrei. Junto com a noiva médica, depois de um cumprimento formal e algum silêncio, ele soltou:

_ Bonitão esse sapato. Parece de jogador de golfe. É novo?

Respondi que sim, meio sem graça. Só então percebi que o calçado estava ostensivamente destoante de todo o resto de minha roupa: uma bermuda velha de guerra de largos bolsos para os dias de folga e minha camisa polo já esgarçada e surrada, dessas de 39,90 vendidas em pacotes com duas. Era o que dava pra comprar e não parecer um indigente durante as missões que minha função me impunha.

Olhei no espelho e nossas imagens contrastaram.

Na época, pagava minha penitência nas rondas de polícia à tarde, de delegacia em delegacia, em busca de crimes. Homicídios, estelionatos, roubos, tráfico de drogas eram o que rendiam, como se dizia no jargão jornalístico. De tanto coletar desgraças e transformar em notas para o jornal, de sol a sol, minha pele estava tostada tanto quanto no tempo em que corria pelas estivas de madeira, saltava os cercados de caibro dos quintais alagados e caia nos igapós insaneáveis da Pedreira, numa infância de lombriga, frieira e olhos amarelos. Meu reflexo tinha um aspecto redondo na face e na barriga e minha cor e meus olhos fundos eram de um nativo de Nova Deli. Apesar de ter menos de 30 anos, minha expressão era de cansaço eterno para equilibrar a rotina da redação e os fins de semana alcoólicos de festa e dança nos bares à beira de rio que varavam a madrugada.

Já eles dois pareciam com a tez repousada como a de uma criança feliz no playground. Ambos loiros em seus trajes claros, caros e casuais. Ele era o filho preferido, o orgulho da família. Boas notas sempre, formação em Direito, curso de oratória, ingresso na maçonaria, emprego em gabinete de juiz, ternos bem cortados. Caso morresse, seria daquelas pessoas cujos presentes no velório seriam só elogios. Tão lindo, tão jovem, tão inteligente, tão bom filho, seria um ótimo pai, um ótimo marido, que tristeza, meu deus! Que dor! Ah, morte, quanta injustiça!

De braços dados com ele, ela era uma jovem franzina, pouco mais de um 1,60. Parecia não ter alma e possuía lábios estreitos. Era uma pessoa bege, que jorrava desdém nas poucas vezes que a vi abrir a boca. Odiada pela sogra e pela cunhada, mas sua posição de escolhida pelo rapaz a punha em posição inconteste. Uma vez soube que havia recusado um emprego que pagava dez vezes o meu salário, porque não era perto da casa dela, longe demais das capitais. Fora essa informação, parecia que seria o par perfeito para o menino prodígio.

Além do comentário fashionista sobre meus tênis, não disseram mais uma palavra enquanto nos movíamos até o quinto andar. Saímos e ele abriu a grossa porta de quatro trancas do apartamento.

_ Olha quem encontrei lá embaixo! Desceu do ônibus e nem viu quando passamos de carro pra entrar na garagem!

Assim fui anunciado e ela me abraçou cheia de pudores e um nervosismo discreto. Entrei com cautela no campo minado. Era um imóvel de três quartos, pobremente decorado. Chamava atenção uma cristaleira escura, que não combinava em nada com a mobília mais moderna. Na parede, um quadro borrado comprado avulso por aí. Na estante, fotos de colação de grau, da família reunida e viagens. Uma delas em Paris. Havia muito zelo na arrumação e limpeza da casa, e uma insistência por parte dos moradores em informar que mudariam dali para um condomínio horizontal, em breve.

Era a primeira vez que minha namorada de então me recebia na intimidade do lar. Todavia já tínhamos explorado o prédio prédio antes e trocados amassos numa área em que o circuito de câmeras não alcançava. De calça jeans e peitos pra fora, me disse não, dentro de um lavabo próximo ao salão de festas, no terceiro dia em que começamos pra valer nosso relacionamento sério sem que os demais familiares soubessem.

_ Não pode ser assim.

_ Tudo bem, tudo bem, meu bem.

Não há pressa nem obrigações em casos de amor. E assim ficamos nesse comecinho, entre beijos e masturbações mútuas, explodidos numa paixão que pra mim já era, de certa forma antiga, e para ela nova, declarada, num dia qualquer, por mensagem no MSN, depois de longas conversas que tivemos, eu todo ouvidos, tal qual um homem perdido de amor ou um cafajeste disposto a consumar o desejo com a mulher da vez. Me classifiquei na primeira categoria, porque, naquele tempo, eu era um romântico – graças às desilusões, hoje perfeitamente corrigível.

Fui logo apresentado à mãe, que disfarçou bem o descontentamento imediato comigo, com elogios caprichosos à filha.

_ Está cada dia mais bonita, inteligente. É nossa princesa.

Concordei com a cabeça e quase faço uma piada seguida de um tapão na enorme bunda da minha idolatrada. Contudo me contive e a coroa de curtos cabelos, elegância forçada, aplicações de botóx e avental correu para a cozinha para os últimos preparativos. O cheiro estava excelente e aumentou minha aflição.

Àquela altura da vida, ninguém havia oferecido um almoço pra mim. Mais tarde, descobri que minha certeza sobre o convite pomposo carecia de complemento: de quando em vez o patriarca, com fama de perdulário, fazia um banquete, do nada, qualquer fosse o motivo. Aquele, especificamente, era porque sua donzela havia encontrado um pretendente. No entanto poderia ser por causa da vitória do time de coração, uma promoção no trabalho ou porque o tempo estava limpo e o sol a brilhar. Não era nada pessoal, nada comigo, apenas o hábito da ostentação. Ou a desculpa perfeita para sondar e saber quem era o garnizé que ameaçava colocar a paz da casa em xeque e agora ciscava dentro do terreiro dele.

Poucos minutos depois, o pai chegou, finalmente, na sala de jantar.

Estava de banho tomado, bermuda, camiseta branca, um cordão de ouro pendurado, um sorriso engraçado com a arcada inferior pronunciada, as bochechas avermelhadas e inchadas dos bebedores. Era corpulento, mais ou menos da minha altura, tinha pouco cabelos e óculos horrorosos.

A primeira coisa que me disse, sem mais nem menos, é que estava em um regime de engorda para chegar ao peso mínimo aceito pelo plano de saúde que o habilitaria a uma cirurgia bariátrica. A voz de trovão era de quem sabia tratar bem quando queria e, em segundos, se tornar uma ameaça de instinto cruel capaz das piores atrocidades. Luz e sombras, bem e mal, céu e inferno, vida e morte. Até que gostei.

Possuía um sotaque cearense resistente mesmo depois de muitos anos longe da terra natal. Fingia um jeito simplório pra disfarçar o autoritarismo por hábito. Era ex-militar e agora uma autoridade estadual da lei. O uso do cachimbo deixa a boca ainda mais torta, no fim das contas. Andava armado sempre, embora não deixasse transparecer a arma, uma .40 bonita e pretinha.

_ Sabe como é. A gente não pode vacilar.

Trouxeram o carneiro ensopado. Fumegante. Todos à mesa. A minha namorada ao meu lado estava bela e nós na fase em que a vontade física um do outro é premente, urgente, indecente. Um vestido curto, cabelos presos e batom vermelho. Visivelmente feliz por eu estar ali. Tinha um sorriso amplo, de muitos dentes, que a deixava com cara de psicopata quando soltava uma gargalhada nervosa. No dia, percebi que parecia muito com o pai fisicamente, o que me trouxe alguma tristeza sem que eu deixasse de continuar a vendo como uma beleza rara de quase 1,80 de altura. A mãe com um semblante tenso pediu para que eu ficasse à vontade e me servisse e o casal do ano da Assembleia Paraense, Mister OAB e Miss Estetoscópio, com um jeito blasé havia colocado pouca comida nos seus pratos. Tinha estrogonofe de frango feito especialmente para a jovem médica que não comia aquelas comidas selvagens. No momento em que remexia a tigela para me servir, o velho quebrou o silêncio com a voz de barítono, ainda mais grave, como se a ressaca tivesse afetado sua fala só naquela hora:

_ É bom comer quente.
_ Meu pai diz a mesma coisa.
_ Teu pai faz o quê?

Medi mal e tirei um pedaço grande do bicho. Estava cheiroso e muito bem preparado, e contei constrangido com a pergunta que meu pai era um pequeno comerciante.

_ O senhor sabe o que é um prestação, não é? Meu pai veio do Piauí pra cá, na década de 70. Trabalha com isso a vida toda. Só que agora está parado. Sofreu um acidente grave…

Virou uma taça de vinho de uma vez. Mais cedo, entre o café e o banho, havia esvaziado uma garrafa e meia. Ignorou minha informação e estalou os beiços. Ah…

_ Esse e muito bom. Comprei logo umas dez garrafas. E a tua mãe? 
_ Minha mãe é doméstica. Trabalha em casa mesmo.
_ Mora com eles ainda? Onde é tua casa?

Era um interrogatório. Não havia mais dúvida. Se soubesse, teria treinado em casa antes de sair. A namorada não percebeu, mas apertou minha mão esquerda por baixo da mesa, como quem está numa turbulência de avião. Tomei um gole de vinho e a olhei com ternura.

_ Robertinho já trabalha no gabinete do doutor M., no Fórum. Mas vai ser procurador ou delegado da Polícia Federal. Logo, logo passa no concurso. É nosso tesouro, nosso bem maior. Tem que pensar no futuro, sabe?

O rapaz sorriu de boca fechada e suas lindas bochechas rosadas se avolumaram e os olhos verdes brilharam. A mãe lhe passou as mãos no cabelo. A noiva se arrumou na cadeira, deu-lhe uma bitoca no rosto, toda orgulhosa.

_ E você? Trabalha em jornal, não é? É na televisão? Acho que já te vi…
_ Não, não. Impresso. Papel. Sou repórter.
_ Ah, tá. Já dei uma entrevista uma vez. Não foi pra você. Era o Dilson. Gosto muito dele, muito sério, muito competente.
_ É. O Dilson é gente boa.
_ E o que você quer com a minha filha? Pensa em casar? Quer ter filhos?

O quinto andar não é tão alto, pensei. Lá fora o ruído leve de poucos carros de um trânsito até tranquilo, no bairro de Nazaré. Era um bom dia pra morrer na contramão atrapalhando o tráfego. Comecei a suar e mexer as pernas. No automático, tive vontade de arrancar o que restava das minhas unhas róidas. Minha namorada interveio, com uma delicadeza bem medida misturada com medo expresso no olhar.

_ Papai, pare com isso. Não liga que ele é assim mesmo, tá?

A mãe cortou o assunto e levantou para anunciar a sobremesa, um creme de cupuaçu da melhor qualidade espetado com biscoitos champanhe. Já estava na terceira taça de vinho e minha cara em brasa. Olhei sério para o homem, que estava a um braço de mim. Caso desejasse, poderia me esganar fácil.

_ Quero inicialmente apenas transar com sua filha. Mas um namoro pra mim está de bom tamanho, no momento. Algo fixo e frequente. Não tenho condições financeiras para casar e provavelmente nunca terei. Sou jornalista em Belém do Pará. O senhor me entende?

_ O que você disse?

Obviamente, ele não ouviu meus pensamentos.

_ Que o carneiro estava mesmo delicioso. O senhor aprendeu a fazer onde?
_ Por incrível que pareça, foi em Santarém, quando trabalhei lá. Não é uma receita do nordeste.
_ O tempero é excelente.
_ Lá, era carne fresca. A gente bebia a manhã inteira e umas onze horas, pegava um facão bem amolado e corria atrás do animal pra sangrar e depois preparar. Bons tempos.

Tomei mais um gole de vinho com a imagem daquele homem com uma lâmina afiada e todo ensanguentado depois de matar o pobre carneirinho. A comida revirou no estômago, mas aguentei. Bebi um copo d’água.

_ Remo ou Paysandu?
_ Paysandu.
_ Ainda bem.
_ Açaí com ou sem açúcar?
_ com.
_ também prefiro.

Comeu mais um naco de carne e falou sobre a importância da família, que era tudo que mais prezava no mundo, que era capaz de tudo por aqueles meninos – e mais uma vez olhou apenas para o reizinho e não para minha namorada. Para ele, os fins justificavam os meios para manter a casa e o bem estar de todos em pleno funcionamento. Não falou em nenhuma momento da filha como alguém que estivesse presente. Apenas ideias genéricas de proteção quanto a adversidades, possíveis problemas futuros ou inimigos invisíveis (agora não tão invisíveis assim). Era um homem de bem, ex-vereador pelo PSDB, que respeitava a tradição e frequentava a missa na basílica.

_ Qual a sua religião?
_ Não tenho. Sou ateu.
_ Um homem sem deus não é ninguém, rapaz.
_ Pois é.
_ Tem que se preocupar com essas coisas.

Chupou um fiapo de carne preso entre os dentes e ficou em silêncio para depois tombar a cabeça sobre o peito. Tinha pouquíssimo pescoço. Relaxou os lábios e fechou os olhos. Ficou uma pontinha da língua pra fora. Assemelhou-se a um bebezão. Achei que havia tido um infarto ou uma congestão. Pela reação dos demais estava tudo bem e a cena era recorrente. Uns dez segundos depois, refez-se: abriu os olhos e deu o mesmo sorriso de quando surgiu. Esvaziou a garrafa de bebida de uma vez só. Do nada, levantou-se, arrotou alto e disse que ia ao banheiro. Não voltou mais.

_ É assim mesmo. Ele come vai dormir. Só levanta à noite. Não te preocupa.

Ouvi os roncos na sala. Tentei ajudar a tirar os pratos e os talheres. As mulheres me impediram. O Pequeno Príncipe e a Noiva Cadáver estavam na poltrona maior da sala mudos, de olhos fixos na TV, mãos dadas. Sentei no sofá pequeno e Luciano Huck anunciava que era Agora ou Nunca.

Olhei meus sapatos. Pareciam mesmo de um jogador de golfe. Minha índia de longos cabelos negros como a noite que não tem luar, belas coxas e um quadril redondo. Bilíngue, prestes a se formar, intercâmbio, baile das flores, Disney, odiava o povo do Fórum Social Mundial, que estava acampado na UFRA, naqueles tempos. O ódio emanava da família toda, embora se sentisse uma estranha no ninho e muito diferente de todos dali. Talvez pela sensação de rebeldia e inadequação tenha me escolhido, ainda que de forma inconsciente. Seria eu uma espécie de protesto silencioso feito por ela diante do clã? Não sei. Só pensei nisso agora.

Ela tinha saído do lavabo com gosto de pasta de dente e, estranhamente, me beijou de língua ali na sala de estar. A médica olhou curiosa com algum nojo e o irmão fingiu não ter visto. Levantei com o sangue levemente agitado na região pélvica. Despedidas, dois beijinhos pra lá, depois beijinhos pra cá, muá, muá, vai desculpando qualquer coisa. A sogra mandou lembranças a minha mãe, como se fossem colegas de clube, ainda que nunca a tivesse visto.

Desci de elevador e me encarei outra vez no espelho. Use filtro solar, o Pedro Bial me pedia no poema de sucesso da época. O estômago estava maior de tanta comida e os olhos embaçados de vinho. Nele, a verdade, enfim.

Caminhei até a parada de ônibus. O Pedreira-Condor demorou mais de 40 minutos pra passar, o que nem percebi tal minha anestesia depois do almoço. Quando chegou, pra minha sorte, sentei numa cadeira alta e não deu nem cinco minutos para mudar de ideia. Desci na Almirante Barroso.

Atravessei as três pistas fora da faixa de pedestre e peguei outro coletivo rumo ao centro histórico. Do celular mandei um SMS pra ela, minha flor. O asfalto exalava o cheiro metálico do vapor depois da chuva. O telefone tocou. Vi o nome no visor. Uma, duas, três, dez vezes até que desistiu. O cobrador se incomodou e desliguei o aparelho.

Precisava de uma cerveja gelada, das que arrombam as papilas gustativas antes de descer goela abaixo. O sol já estava de novo a me massacrar de tanto calor. E eu continuava sem acreditar em nada.


Vá ouvir Sem destino.


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