O corpo não é um templo, é um museu fechado pra reformas

Photo by Tim Mossholder on Unsplash

Ela era uma lembrança tola, de uma menina que invejou meu violão de brinquedo e me induziu na base do choro a vendê-lo sem mais nem menos sob o gracejo dos adultos. Recordo a sensação de derrota daquele dia dentro de um carro, na volta pra casa, sem saber argumentar. Fui somente levado pela corrente e morri um pouco de tristeza pelo meu instrumento. Muito longe do primeiro encontro na linha do tempo, estávamos ali, crescidos, de novo a negociar, agora algo que nem sabíamos direito o que era.

Tinha uns 20 e talvez ela fosse um ano mais jovem do que eu. Enfrentava a minha primeira greve na universidade e resolvi fugir da capital pra casa de uma tia-avó, que morava numa cidadezinha, tão velha quanto ela, às margens do Baixo Tocantins, onde à tarde me banhava nas águas barrentas e me arriscava em canoas mínimas e remos feitos de tábuas podres para chegar aos bancos de areia e conhecer o silêncio real cortado só pelo maresia e pios de pássaros. Era eu um rapagão espichado macilento e com tendência a paixões que me fulminavam a cada vez que as possibilidades se apresentavam.

E, ah, ela era uma das excelentes possibilidades. Introvertida ao extremo, usava uns óculos de lentes grossas, tinha uma pele marrom que em tudo combinava com os cabelos lisos castanhos quase bronze. Roliça, de canelas grossas e o sotaque nasal, cantando e de longas vogais, cheio de hum-huns e hem-hens da região. Todo amor que me cabia naquela idade de sonhos intactos estava ali em formosura e adiposidade. Eu, você, nós dois, já temos um passado, meu amor: um violão guardado, aquela flor e outras mumunhas mais…

Ela me reconheceu e tinha ouvido da própria mãe que o menino do violãozinho estava na cidade, o filho de Clarisse, o neto de Marita, sobrinho de Alzira. Me olhou incrédula, apesar de toda discrição, quando ficamos frente à frente. Mal disse um oi e emendamos uma conversa com primos menores em comum ao nosso redor e, quando demos por nós, estávamos já sozinhos no rumo do cais, onde os namorados iam fazer saliência às escondidas sem sequer perceber a malícia do momento.

Me falou de livros, de não gostar de Belém, do que viria a ser quando crescesse, de como a música se fez presente na vida dela, de nunca ter tido um namorado, do brinquedo que ela ainda possuía como relíquia. O mesmo da troca. E Trocamos? Não vendi? Sim, trocamos. Era a primeira traição da minha memória, porque recordo, como se fosse agora, os borós recebidos pela venda na minha mão enquanto retornava para casa desiludido com minha primeira perda consciente. Rimos bastante de vários temas e, para quem era tímida, ela estava falante e expansiva. E ficamos também em silêncio, por vezes, de olho no rio, com o vento no rosto, sem ter a menor ideia do que fazer.

Posso ter segurado as mãos dela e sentido o suor gelado da juventude? Talvez, porém é possível que seja só mais uma memória implantada pela minha imaginação. O mais provável é ter ficado ali parado na espera de que algo extraordinário ocorresse de forma natural e avassaladora e nos transformasse em dois amantes de cinema alumiados pela lua equatorial. E as mãos se procurassem na pouca luz, o meu corpo magro se chocasse com delicadeza ao corpo gordo dela e as bocas se encontrassem no escuro, famintas como são as bocas jovens, como deveria de ser. Era o que eu ingênuo ansiava, sem tanta interferência dos hormônios de então.

Ocorre que de onde menos se espera é de lá que não sai nada mesmo, como dizem. Ficou tarde, ela mencionou o horário e voltamos pelo mesmo caminho, de novo a sós, em passos de enamorados sem nem lembrar da praga dos pirralhos que estavam no início do nosso reencontro. Deixei-a na porta de casa, sem beijo, sem amasso, sem nada, com exceção da vontade e do arrependimento.

No outro dia, recebi um bilhete. Essa história faz tantos anos que as pessoas ainda escreviam mensagens em papéis e enviavam como segredos umas às outras, tal qual nossos ancestrais. A nota dizia em um letra redonda de quem fez caligrafia:

Quero te ver novo, no cais. Hoje, sete horas, logo depois da janta. Assinado: C. Beijo, beijo.

Estremeci, tive taquicardia. A criança que entregou não sabia ler ainda, de tão pequena que era, mas riu e entendeu que o escrito guardava alguma promessa e malícia. Vai embora, moleque. Sai daqui. O diabinho correu às gargalhadas, descalço e em ziguezague, com as mãos seguras no short frouxo pra não cair. Virou a esquina zimbado, uma flecha.

No horário previsto, vesti uma calça de sarja de largos bolsos, uma camiseta branca e minhas alpercatas de padre. Era meu uniforme na época. Nunca fui de ter muitas roupas. Em viagem menos ainda. Borrifei a alfazema da tia-avó. Escovei os dentes de novo antes de sair. Me olhei no espelho. Estava magro como um cachorro vadio, o cabelo sem corte, meu rosto tinha cicatrizes de acne antigas e recentes e novas espinha em flor e minha pele estava queimada de tanto sol por viver na rua naquelas férias imprevistas. Me achei mais feio do que de costume, odiei minhas unhas roídas, e pensei em como ela era bonita, tão diferente de mim. Bem cuidada e asseada e eu um promissor indigente. Será que me queria mesmo? Borboletas no estômago, grilos na cuca, segui rumo ao cais.

Antes de chegar na rua que deveria dobrar, a luz apagou.

A cidade inteira quase às escuras, porque o crepúsculo ainda permitia um fiozinho de dia. Ouvi o rugido dos moradores dentro das casas, numa comemoração às avessas. Quanto mais andava mais o breu tomava conta de tudo. Logo a noite se estabeleceu, incomodada apenas pelas raras chamas de vela nas janelas e algumas lamparinas a querosene no interior das moradas de portas abertas que via pelo caminho.

Embora sem enxergar quase nada, mantive o percurso em direção a Praça dos Notáveis, logo depois da igreja de São João Batista. Se chegasse lá seria fácil achar o cais. Bastava apontar para o farol em direção à rua interditada pela erosão. A ansiedade de chegar me guiou e alcancei o lugar sem muito esforço pra esperar em vão, como era previsível. Fiquei plantado, com alguma aflição e medo de visagens, e ainda ouvi gemidos abafados de um casal que se apertava na porta de um casarão colonial assombrado e o riso nervoso de um grupo de silhuetas que passava a brasa vermelha de um cigarro de mão em mão. Desisti uma hora depois de ter chegado. Nada da energia nos postes, nada de ela aparecer. Mofino, fui embora.

Mas, lá adiante, ao invés de virar à direita, errei e segui pelo lado oposto. Conforme avançava ouvia as conversas cochichadas dos nativos, a postos na beira das ruas, que esperavam que alguém, sabe deus quem, ligasse o motor a óleo do gerador central. Um zumbido de vozes respeitosas com a noite em estado bruto, que gerava um clima fantasmagórico ou de pesadelo quando se dorme com frio. E falavam de tudo e de todos, das velhas e novas histórias, das reais e das imaginadas, do desastre na estrada ontonti, da mulher que enlouqueceu abandonada pelo marido, tu viste?, do filho da vizinha da irmã de uma prima que agora estava no exterior, mas, ah!, do enforcado só achado pela família uma semana depois no galho do jambeiro, mas credo!, do homem que virava cobra nas bandas do sítio, mas quando já!, da mulher que vivia com dois maridos em paz e feliz, de Max, o estuprador de homens, de uma assalto que ocorrera num casarão da aldeia e tantos outros temas para passar a hora naquele marasmo ampliado pelo negrume.

Continuei a caminhada distraído pelo fuxico e os olhos já tinham se adaptado àquela altura. Sem perceber estava em rota de colisão com uma profusão de pequenas luzes, distantes, em movimento, como um exército vermelho de pirilampos. Parecia um congestionamento de veículos de brinquedo ou como se a poluição luminosa da urbe escorresse pela rua principal do município feito lava quente. Mas, junto com os pontos brilhantes, acompanhava uma melodia, também compacta, doce, quase infantil, crescente, vibrante, sentida, bela e triste, tal a trilha de uma festa para os mortos.

Hipnotizado, permaneci no mesmo passo até chegar a praça principal e perceber os vultos estáticos à espera do acontecimento. As lanternas encarnadas já eram mais visíveis e fortes e o ambiente foi tomado pela cantoria, agora nítida cantoria, acompanhada de bumbos e metais. Contritos, todos sabiam do espetáculo, só eu que não. Na pouca luz, percebia-se as almas postadas nas janelas, em pé nas portas, acocoradas no batente, sentadas no meio-fio, escoradas nas árvores e postes, trepadas nos bancos e na estátua do maestro Vicente, constituídas numa plateia consciente e expectante.

A rua foi tomada de vez e as luzes, antes indefinidas, eram candeias acesas nas mãos enrugadas de beatas devotadas que entoavam os hinos em coro agudo e afinado, como gatos apaixonados no telhado. Vinham fardadas de branco e vermelho e de escapulário no pescoço. No meio da multidão, também acompanhavam velhos de movimentos vacilantes, cada um de posse do seu próprio fogo. Homens mais jovens carregavam e tocavam os instrumentos de percussão. Os demais músicos dos sopros eram ilustres do lugar, perdidos no anonimato da vida sem eletricidade. Ainda assim reconheci, o mais célebre de todos, com sax de ouro, as costas curvadas pela idade, o indefectível chapeuzinho na cabeça e mancha escura na fronte. Era meu tio-avô a fazer o que lhe deu fama e título de mestre consagrado. Comandava a banda e rezava ao mesmo tempo, como num transe. E, quando vi aquele homem, como um fantasma concentrado a pagar sua pena, chorei, sem entender o porquê chorava.

Fui engolido pela procissão, invadido de pavor, euforia, alegria, pertencimento e comoção naquela cidadezinha que foi de minha avó em tempos que ninguém mais lembrava. Era São João, um céu de junho limpo enfeitado de constelações infinitas e, quando a multidão passou, segui sem lembrar do encontro e embebido pelo que a escuridão pariu naquela noite, longe do cais, longe de casa, longe de saber que era uma memória perpétua que acabara de ganhar depois de um encontro que nunca se concretizou, porque ela viajaria no dia seguinte e nem nos despediríamos, apesar de tentar vê-la no embarque sem sucesso.

Muitos anos depois, já na capital, nos esbarramos num shopping, num desses acasos que acontecem a toda hora em grandes metrópoles que são ainda pequenas províncias. Eu já não era o pós-adolescente esquálido perdido. Ela também havia mudado em quase tudo. Manteve os olhos amendoados e os dentes bem enfileirados. Era praticamente uma jovem senhora. Nos abraçamos e trocamos amenidades, como vai? por onde anda? E nosso pequeno violão? Etc, etc. Até que, por brincadeira e interesse honesto, trouxe à tona a falta de energia e o furo que levei depois do bilhete enviado por ela naquele ano. A mulher me olhou com atenção, o estrabismo da adolescência voltou levemente, e ficou muito séria, talvez também porque já fosse casada e aquilo não era mais assunto pertinente a nós. Ainda assim, soltou intrigada:

_ Nunca enviei bilhete nenhum.

Ri um riso da cor de um taperebá , mandei um esquece isso e, no ato, como uma peça solta de quebra-cabeça, me veio o menino às carreiras, de riso frouxo, depois de ter me entregado o papel.

Só então, entendi que o roteiro daquela lembrança esmaecida foi escrito só para que eu me deslumbrasse com as luzes da romaria e a sinfonia sobrenatural que tomou o blackout junino guardado cristalino no meu museu particular, invisível e em constante reforma.


Vá ouvir Siriá.


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