Amor

Amor

Os amantes, de René Magritte (1928)

Primeiro o Amor não existiu, como é o normal para todas as coisas, numa época em que nem gente havia.

Nesse tempo, as feras se viam e apenas se saciavam por instinto e por muitos invernos esse ritual persistiu, mesmo quando já havia gente ávida por aí.

De cima da pedra mais alta, o Tédio observava, curioso aquela dança e arregalava os olhos com aqueles uivos desesperados.

Viu tantas vezes até que cansou da repetição enfadonha da mecânica do corpo. Já estava quase sem graça, quando ele deu de gerar o Amor pra ver se o negócio melhorava.

Filho do prazer com a apatia, nasceu mudo, sem choro, os olhos enormes e clarividentes. Um menino gordo de pele noturna, substantivo, porém, abstrato.

Não mamou em peito nenhum, brotou feito flor sem pedir licença. Cresceu solto a correr sozinho nas matas e beiras de rios, encorpou com suspiros alheios e o barro que comia das paredes das cavernas onde se abrigava e se escondia de todos por um sem número de séculos.

Gozou de adolescência isolada e arredia, com raiva de tudo sem entender o mundo nem a que veio.

Até que saiu de lá, já um rapagão, pra respirar novos ares e tomar sol nas suas enormes bochechas.

E todos que o viram sorriram de orelha a orelha, como quem vê um velho conhecido ou uma novidade absoluta, que era deveras desde que surgiu.

Deram a ele um espelho e brilhantes. Tosquiaram-lhe os cachos e cobriram suas vergonhas com roupas vistosas. Calçaram-lhe ele sapatos, coisa que nunca havia usado. Nunca ganhou arco nem flechas, como diriam anos depois.

Então, o pobre viu pela primeira vez o próprio reflexo e se chocou com a beleza refletida. Até então não sabia, não se percebia, ninguém o avisara, mas era lindo.

E não só: dourado, perfumado, galante, leve, viril, forte, esbelto, envolvente, insinuante, charmoso, hábil, labioso, estupefaciente, perfeito.

Uma brasa, mora?

Um único defeito preocupava a bela criatura: precisava ser visto de longe para parecer ainda mais vistoso, porque quanto mais perto a imagem se esvaziava, derretia, embaçava, desfocava, embaralhava, confundia-se, descoloria, perdia brilho, ganhava chuviscos, chiados, zumbidos, fantasmas, virava outra coisa, muitas vezes sumia.

E o Amor sofria. Não por ele, não pela natureza fugidia da qual era feito, mas das tantas queixas dos que tentavam se aproximar e se decepcionavam, frustravam-se e, na sequência vilanizam o coitado; Embucetava-se de tantos dedos apontados na sua fuça. Sabia que a cada ofensa ficava mais horrendo aos olhos do ofensor, antes muito encantados com a formosura e a perfeição do Amor. A luz da aura dele agora bruxuleava com o fracasso de público e de crítica; amuava-se, castigava-se por não poder se exibir pleno, em resolução 4k, a qualquer ângulo, a qualquer distância, vaidoso e tolo que era também.

Daí a incompreensão, o desgosto, o imponderável e o disse-me-disse enfearam o Amor.

Foi uma fase terrível. De aflição, ansiedade, acne na cara, cabelo mal penteado, hálito azedo, compulsão e vício. Nada lhe caia bem. Nada lhe fazia bem. Nada lhe pertencia. Nenhum lugar era seu. Tudo lhe escapava.

De completo, virou meio termo.

Empalideceu.

Enferrujou.

Envelheceu.

Encolheu.

Apodreceu.

Fedeu.

Passou a frequentar salões de beleza, casas de estética, clínicas de cirurgia plástica, casas de suingue, feiras livres pra se perder na multidão. Tentou de tudo pra disfarçar: cremes, perucas, procedimentos para repuxar a cara, roupas de grife, cursos de maquiagem, terapia, becos escuros, casas abandonadas, raves lisérgicas, ioga, acupuntura, crack, crossfit, chá verde, caminhadas ao luar, aulas de dança de salão, canto gregoriano, deepweb.

Vivia a pensar sobre ser o que não era e até sobre ser o que, de fato, era e querer deixar de sê-lo. Já não se reconhecia, não se enxergava, preferia que não lhe dirigisse a palavra e se automutilava com giletes sem fio nas madrugadas, os dentes rangidos, os olhos vidrados e os travesseiros encharcados de água e sal.

Infeliz, deu um tempo, uma sumida. Saiu do Instagram, desinstalou o Facebook, desistiu de vez do Tinder e todos os outros similares. De novo, não pôs a cara na rua. Não quero ver ninguém, não me liguem, digam que morri, dizia.

Queria que o esquecessem e quase conseguiu por certo tempo.

Já quase ninguém falava dele e a maioria voltou ao se entreter pelo alívio do corpo. Só uns poucos perceberam o desaparecimento repentino.

Não demorou nada para que esses gatos pingados, os desesperados de sempre, urrassem de dor pela perda e cometessem em ato contínuo o gesto tresloucado por pensarem que, naquela altura, o Amor havia partido cedo demais.

Numa noite de lua nova qualquer, um desses angustiados, sem aguentar mais de tanto vazio, arrancou o músculo cardíaco. E por não ter a quem entregar, deu a mulher com quem, estranhamente, dormia junto seguidas vezes. Foi o modo que encontrou de homenagear aquela espécie de santo, o tal Amor, que não se sabia notícia havia tempos.

Embora houvesse muitos outros órgãos para extirpar — um pâncreas já carcomido, um rim empedrado, um fígado esterilizado, um cérebro confuso, pulmões esfumaçados, um apêndice inútil, um estômago cheio de borboletas — , o incauto preferiu o mais inquieto, óbvio que era.

Ensopado de sangue e enzimas, com as veias e artérias dependuradas, era aquele presente um troço horroroso nas mãos da mulher desavisada.

De uma vez só, ao olhar e sentir a massa sanguinolenta e inquieta, ela se repugnou e se encantou com o gesto.

Horas mais tarde, em mesa de bar, comentou com as amigas, deu detalhes da cena.

Ouviram tudo com horror, frisson, incredulidade e inveja.

Agora queriam também alguém que lhe entregasse um coração como ritual ao desconhecido, como era mesmo o nome dele…? Amor.

Quase obsessivas, desejam o mimo ainda fresco, sangrado e pulsante. Se possível, com laço de fita.

E como o caso não era de gênero, já que homens e mulheres possuíam a mesma anatomia, pretendentes, namorados, noivos e maridos passaram a desejar o mesmo de seus pares quando a história se espalhou. Movimento igual ocorreu entre as mulheres que formavam pares com outras mulheres e homens que formavam pares com outros homens e os que formavam com ambos os sexos por terem nascidos com esse superpoder.

Quase todo mundo foi atendido, de uma forma ou de outra, e aquilo, antes repulsivo, tornou-se rotina para mais tarde ser repetido à exaustão pelo povaréu.

Todos espalhavam aos quatro cantos que recebiam e entregavam corações pelo Amor, enquanto ele permanecia isolado na caverna, a mesma em que cresceu com o bucho cheio de argila.

Só foi descobrir que era idolatrado de novo quando a multidão o arrancou do exílio e o carregou nos braços para exibi-lo por aí, numa primavera já distante na memória. Quem descobriu o endereço não se sabe. Mas o levaram arrastado em cada sala de estar e quarto de família e de casa de tolerância, em cada salão de festa, pátios de escolas, missas, templos, terreiros, em ruas largas e estreitas, em esquinas e becos do país. E todos queriam vê-lo, tocá-lo, beijá-lo, rasgar suas roupas.

Era o amor agora um tipo de rockstar, um excêntrico que provocava reações alucinada em quem se feria no peito para provar que ele existia.

É homem, é mulher, é deus, é o diabo, é um anjo, é um monstro que devora corações no café da manhã.

De tudo diziam dele.

Levado por estranhos, rodou de norte a sul e ignorou os traumas de outrora, de tão acostumado que estava à badalação em torno de si.

Mas, dado à melancolia e alguma frescura, quis se recolher novamente nas grutas imemoriais, de novo as dos tempos das feras, das insônias e do esquecimento.

Exaurido da porra toda, teve asco da fama e amaldiçoou os falsos amigos que lhe construíram a nova imagem pop e lucraram com ela até não poder mais. Destruiu fotos, livros, fitas k-7, discos de vinil, filmes em VHS. Violento, magoado, avesso do sentimento, oceano sem água, evaporou de novo e jogou o celular fora dessa vez.

Houve falências, suicídios, queixas nas delegacias, chamadas públicas em jornais, matérias de jornais com fãs desconsolados pela perda do ídolo.

Ele nem aí. Foda-se.

Trancafiado ficou.

Pura culpa e autocomiseração.

Como se deixou levar? Sabia a resposta, o cínico.

Deixou a poeira baixar e o mundo girar. Quando já não o lembravam mais como astro, mexeu nas economias dos tempos de vacas gordas e abriu um bar no centro histórico decadente da cidade para atender velhos que arrancaram o coração por ele, lá em 1972, e, na atualidade, choram sozinhos em cima de copos de cachaça

Quando não hà movimento, coloca Belchior na vitrola e observa detrás do balcão o salão vazio.

Nas folgas, sai de quando em vez por aí, na esperança de achar cerimônias em que extirpem órgãos pulsantes em louvor a ele mesmo.

Sabe que o ritual é brutal e pouca gente acredita que ainda haja quem se dê a esse trabalho.

Desuso.

Over.

Cafona.

Nas noites mais escuras, o amor passeia num Chevette azul 89/90 pra ver seu nome em neons de motéis e em cartas jogadas no lixo ou ouvi-lo em velhas canções de programas de rádio. Para em frente de baladas, mercearias e pontos de ônibus para olhar as pessoas absortas.

Volta calado. Não sabe dizer se sente saudade dos velhos tempos ou agradece a condição de decadência sem nenhuma elegância.

Tranca as portas, apaga a luz, Deita-se nu e sozinho, toda noite, à espera de que o sono venha ou a morte o leve de vez.

(Vá ouvir Amor, meu grande amor).


Gostou? Então, apoie este espaço antes que grandes editoras descubram o autor e haja filas quilométricas em busca de uma dedicatória e tempo nenhum para escrever sem nenhuma recompensa financeira. Seja legal, deixe suas palmas, faça um comentário, compartilhe nas suas redes. Me ache no Facebook, Twitter e Instagram. Ou não.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s