Canto do galo

Photo by Pham An on Unsplash

Arregalou e limpou os olhos antes do sol aparecer. Sentiu no final do espinhaço a dor de todo dia. Amaldiçoou, como sempre. Puxou a perna direita, depois a esquerda e acondicionou as duas na posição certa, na beira do colchão encardido. Apoiou-se nos cotovelos. Esvaziou os intestinos inchados de gás. Arrumou mais força e colocou o primeiro pé, o destro, no chão, e, em seguida, o canhoto e ampliou a audição para ouvir o galo se pronunciar. Em vão.

Ergueu-se devagar. Foi ao fogão. Duas bocas precárias. Gordura velha, claras de ovo tostadas, grãos de arroz petrificados, manchas escuras, jornais velhos chamuscados, dezenas de fósforos incendiados e formigas formavam um tapete vivo em cima da máquina e faziam qualquer um desacreditar que ali se cozinhava. Pegou o bule de alumínio amassado e encheu de água, acendeu a fraca chama azul e a observou por um tempo antes de colocar o recipiente para iniciar a fervura.

Em seguida, mexeu na tramela e abriu a porta da cozinha, pouco antes de enfiar a mão no saco de farelo. O quintal estava tomado por lixo, erva daninha e mato ainda curto e exalava um cheiro ácido e vivo, com um igapó que se tornou esgoto a céu aberto. Lançou os grãos e os bichos vieram em alvoroço, como se já estivessem acordados devido uma insônia incurável. O sol começava a aparecer e homem ficou ali a olhar as galinhas e os pintos muito magros comerem sob o lilás da quase manhã.

Pensou no galo. Teria virado canja, se perguntou, embora soubesse que o animal era muito velho para servir como refeição. Se bem que os tempos estavam difíceis. Depois de tanto tempo de chuva e um período mais longo ainda de estio, tudo tinha primeiro mofado, enferrujado, apodrecido, amolecido, virado lama para mais tarde encarquilhar, queimar, secar, tornar pó, envelhecer ou morrer. Sobraram poucos animais. Plantas, quase nenhuma. Só agora iniciava o surgimento do que seria um matagal. A antiga horta ainda era ruína e ele, se acreditasse em deuses, levantaria as mãos aos céus para agradecer nunca ter faltado comida nos anos de castigo.

O galo era um herói a resistir, o guardião vencedor, testemunha desde os primeiros dias difíceis. Era estranho o silêncio de manhãzinha depois de tanto tempo marcado pelo esganiçar da ave, empenhada como um funcionário padrão em um canto que, conforme o tempo passava, soava cada vez mais sem afinação e triste, porém vivo como um berro de neném.

Despertou-se da contemplação inútil e foi adicionar o pó de café. Havia dez anos repetia os mesmos gestos, numa obsessão em fazer tudo exatamente igual. Buscou a xícara de sempre. Sentou-se à mesa na posição exata de ontem, de anteontem, de antes de anteontem. Apertou o joelho direito, girou a colher cinco vezes para a esquerda dentro do líquido fumegante e bebeu de um gole grande para queimar a goela e lhe acordar de vez.

Revisou os últimos minutos: arregalar os olhos, limpá-los, as pernas na posição, pé ante pé no assoalho, erguer-se, fogão, olhar o fogo, água no bule, comida para as galinhas, café sem açúcar, nenhuma dança; par, menos ainda. Quando sorveu o líquido quente todo até a última gota, deixou-se abater. Tanto quanto na vez em que a mulher deixou aquela casa. A repetição, para ele, era sinal de que as engrenagens estavam funcionando, que o mundo não parava e a rotina (a própria vida) estava assegurada, em movimento.

Mudanças nunca foram bons presságios, sempre pensou assim.

Desde que os cabelos começaram a embranquecer, tudo degringolou. Não demorou a aposentadoria veio, logo depois da perda de parte do movimento da mão esquerda. Apareceu a colite, a magreza, o descuido, o estorvo. Sem demora, Judith se foi. O único filho partiu para Holanda sem nunca mais dar notícias. A casa se tornou imensa, silenciosa, escura e suja, como uma toca de ratos sem ratos. O cachorro, após 18 anos, já cego, quase sem andar, morreu sem pêlos nem forças, cheio de tremores e ganidos apavorantes. Os vizinhos quase todos venderam as casas para corretores na época dos temporais eternos.

Na seca, as construtoras escavaram tudo ao redor. Tratores e caminhões gigantes trabalharam meses a fio sem parar um só instante, deixando no ar o barulho dos motores, os berros dos peões, a poeira, o gosto do cimento na garganta e a fumaça de óleo diesel nos pulmões. Renitente, ele não saiu. Recusou até o fim as propostas das moças de terninhos, dos homens de gravata. Quando a oferta chegou a três vezes o valor daquele imóvel combalido, foi a vez das incorporadoras desistirem dele. Quando os poucos resistentes achavam que multiplicariam apartamentos em prédios com jeito de pombais, o maquinário e os operários sumiram depois que mais uma bolha especulativa estourou em um país em que ninguém das redondezas sabia pronunciar o nome repetido no noticiário, tampouco compreendia com clareza a relação que o fenômeno financeiro tinha com suas vidas ordinárias.

Em meio ao cenário pós-guerra, sem batalha nenhuma, ele mantinha o rigor de repetir o dia-a-dia que havia lhe sobrado. Acordava às cinco, almoçava às onze, tirava a sesta a uma da tarde, lia o maltratado livro de Contos Reunidos do Rubem às quatro e se entretinha com saudades apodrecidas até o sono chegar. Sentia falta até da cor mostarda das máquinas pesadas que não o deixavam dormir no período de fazer buracos inimagináveis nos terrenos devastados. Ressentia-se de não lembrar mais o rosto da jovem mulher que se foi. Por que levar as fotos? A recordação que sobrou era apenas era de uma velha, de rosto gretado, a cabeleira rala e o olhar oco, igual à noite anterior ao dia em que saiu porta afora.

O abatimento daquele homem velho estava exposto a quem quer que fosse se houvesse alguém ao redor para perceber. No entanto, se existisse, de fato, uma platéia, no máximo, o que faria era rir se todos soubessem que todo o pesar da hora tinha a ridícula ligação com um canto de galo omitido, não cantado ou, no extremo mais provável, na morte de uma ave vulgar e tão velha quanto seu único lamentador.

Permaneceu com a xícara sem firmeza na mão ruim. Levantou-se e foi ao ver quintal mais uma vez. O mal cheiro agora contraiu o estômago forrado por cafeína e quase engulhou. Engoliu o cuspe grosso do enjôo e olhou na direção do cercado de tábuas sem consistência e caibros agrestes, onde ele cria que o galo se empoleirava todo dia para cantar. Nada. Nem sequer uma pena. Só silêncio e ruína.

Virou as costas e entrou em casa não sem antes trancar a porta frágil. Os 20 anos de fracasso parecem ter dobrado de tamanho e lhe curvaram mais o espinhaço. Os passos lentos e arrastados ganharam o corredor cujos escombros atrapalhavam a passagem. Tentou chutar sem êxito a bola Dente de leite já murcha do filho extraviado. Arredou uma banda de sapato que fora da mulher. Quanto mais se aproximava do que havia sido a sala de estar, mais era tomado pelo breu do abandono, cortado apenas pelas linhas finas de poeira desenhadas pela luz de frestas ocasionais de janelas trancadas.

Atingiu o sofá de três lugares com certa dificuldade. Deitou-se de barriga para cima, as mãos postas uma na outra sobre o peito. Acomodou-se entre trapos. Fechou os olhos, sentiu a dor percorrer o corpo, de novo, lamentou com sinceridade e fervor de uma oração de fanático. De vergonha, as poucas visagens que ali ainda habitavam saíram para outras sombras. E ele, em sons semelhantes ao do galo em dias de rotina inalterada, rendeu-se e fez o que deveria ter sido feito desde que a derrota começou a se alastrar em sua existência: chorou o choro convulso dos meninos que se perdem da mãe.

(Vá ouvir Galos, noites e quintais)


Texto adaptado do conto de mesmo nome, publicado originalmente no meu livro “Bêbado Gonzo e outros histórias”, lançado em 2013.


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