Poetas

Vinicius de Moraes e Pablo Neruda (Foto: Pedro de Moraes)

Antes de o mundo acabar, existiam livros e leitores e, anterior a eles, havia os escritores, dos quais os que mais gostava eram os poetas. Tão diversos quanto sensíveis, antenas do mundo, malditos, irresistíveis e trágicos, quase todos. Os melhores, pelo menos.

Às vezes, entrava escondidos nas tocas esfumaçadas onde se escondiam e se exibiam entre si. Só para espiá-los. A maioria nem contava que havia contraído a poesia ainda na infância e se fingia (fingidores!) de meros declamadores. Por timidez ou para não desgraçar a família de imensa vergonha. Não era fácil e havia muito preconceito. Prefiro um filho ladrão a um poeta, berravam os pais, enquanto os pobres rebentos roubavam para comer e pagar o aluguel dos quartinhos fétidos onde habitavam e escreviam versos que não eram lidos por ninguém.

Era um tempo difícil e eles só se tornavam dignos de revelação e veneração depois de terem vivido em sofrimento e partido dali para o limbo merecido. Provavelmente na Grécia mítica. Lá eram recebidos pelos sábios e pelas ninfas para, enfim, gozarem a felicidade plena. Do outro lado, recebiam liras de ouro para inspirar novos poetas, estes no mundo físico a padecer nesse ciclo sem fim.

É claro que nem todos eram desgraçados. Tinham os ricaços e que usavam a influência para disseminar a própria palavra. Viviam em lindas casas, tinham belas mulheres e belos homens, eram reverenciados por reis e presidentes e abençoados com o maior regozijo de todos: a reverência de leitores fiéis. Endinheirados e endinheiradas que viveram muito bem. Mas, quase nenhum desses valia alguma coisa. Somente os que, em algum momento, caíram em malogro. Seja pela língua ou pelo fígado. Estão aí Neruda e Vinícius que não me deixam mentir.

Nestas andanças, nesses lugares não sabidos, nessas tocas de devassidão e sentimento do mundo, nessas cavernas de declamação e busca do belo, entrei certa vez com um propósito muito bem definido, pouco antes do último selo do apocalipse ser rompido e a peste ressurgir para devastar a humanidade quase de vez.

O primeiro que matei era o condutor da récita. Um belo lusitano de tez cuidada e descansada, ampla careca e barba pontuda muito bem escanhoada. Parecia que havia saído de uma pintura renascentista com seus belos olhos castanhos de brilho intenso e longos cílios. Quando o sangue extravasou pela goela, ele não conseguiu dar seguimento à leitura de um poema de Fernando Pessoa, escrito havia mais de 90 anos. Engasgou-se com o líquido vermelho e caiu no chão em estrebucho. Tinha uma dicção perfeita, voz límpida como o som de uma pequena cachoeira na floresta. Morreu entalado com um heterônimo.

Todos me olharam e beberam as bebidas de cima das mesas com certa fleuma e muita reprovação. Guardei a arma constrangido por ter interrompido a tertúlia de forma tão abrupta. Ao lado do cadáver, o tocador pegou o violão para continuar a noite e cantou uma triste canção com dedilhados dissonantes. Poupei-o. Gosto de músicos e ele não escrevia nada. De instrumento na mão, agradeceu-me com o polegar pra cima. Desse jeito, com ênclise, pois estávamos no berço e tradição de grandes versistas.

Lá atrás uma mocinha, de seus vinte anos, começou a ler outro poema. Em um espanhol da Galícia. Usava roupas escuras e tinha uma franja muito curta. É muito provável que ela mesma tenha cortado para transparecer a intensidade emocional peculiar de uma alma delicada e/ou um transtorno de personalidade ou o cabeleireiro dela era um iniciante sem nenhum talento pra coisa. Gorda e muito firme nas convicções, o texto falava sobre os novos tempos, identitário, incendiário, bonito, verdadeiro, pujante. Acertei um único projétil no pescoço, creio que na segunda estrofe da terceira página. Caiu de olhos abertos por cima de um jovem estudante de Letras da Universidade do Porto, que teve muita dificuldade para se livrar do corpanzil. Antes de morrer, chamou-me misógino. Paciência.

Não houve tempo para comoção, porque o andarilho da cidade invadiu o ambiente e foi aclamado. Muitos aplausos. Entrou capenga de uma perna, os cabelos longos, o nariz adunco e o rosto engelhado da Bruxa da Branca de Neve. Era levemente corcunda e trouxe uma pilha de livros artesanais, produzidos, editados e montados por ele mesmo. Pediu licença para ler três poemas, sem métrica, mas com boas rimas e humor. Enquanto arrumava a cabeleira que lhe cobria os olhos, mencionou que já estava bem da hepatite C, sem saber que havia contraído o vírus, que naquela altura era quase desconhecido de todos e havia ceifado a vida de poucos mundo afora.

O velho trovador fez muito esforço para enxergar as palavrinhas no papel e a leitura era ruim, atravancada pela falta de dentes e pela pressa. Terminou com uma canção sobre uma amante, um policial e seu vício em drogas ilícitas. Saiu pela porta por onde entrou depois de informar que estava tarde e ainda precisaria andar muito. A madrugada estava fria e ele seguiu rumo para lugar nenhum com seu cheiro de benzina, tabaco e suor. Não me deu a honra de poupá-lo. Poetas miseráveis são sempre os melhores, elogiei em silêncio.

Dois jovens brasileiros pediram licença para apresentar uma canção autoral feita por um deles. Os dois tocavam a guitarra acústica muito bem. O compositor tinha um estilo todo próprio com o instrumento. Balançava-se todo e provocava efeito visual de um suingue verdadeiro. Mas, era só impressão. Ele era branco, como todos ali, exceto eu. O parceiro, mais sanguíneo e baixinho, parecia mandar na relação. Dava comandos para que o estreante no espaço se mostrasse melhor ao público.

O primeiro abati com uma porrada com um contrabaixo que estava na área de apresentação e o segundo correu porta afora, apavorado. Não fez diferença. Soube que quis ir embora do país, traumatizado, porém, os pais fizeram uma gorda transferência e o orientaram a ficar na Europa devido ao início da pandemia e ao medo de contágio nos aeroportos.

Depois que ele saiu, uma senhora leu um poema belíssimo de uma autora lusitana, que me foge o nome agora, logo depois que músico do Brasil parou de gemer e respirar. Olhei com curiosidade para ela. Lia com pausas certeiras, clareza e harmonia. Parecia uma antiga professora de Literatura ou uma das senhoras que via na missa das sete, antes da celebração das crianças, na minha infância quase esquecida.

Ela me encarou muito sisuda e combativa. Tu não tens coragem!, fuzilou-me. Acreditei que o desafio fazia parte da leitura dramática. A bala lhe fez um furo pequeno na blusa clara que foi manchando lentamente. Permaneceu sentada e os olhos foram ficando baços até perder a vitalidade e ela recair sutilmente com a cabeça para frente, muito elegante.

O rapper mais famoso daquele sítio interrompeu o fim de agonia com uma crítica social bem colocada. Ritmo e poesia, postura e atitude. Era um homem alto, jovem, de barbas negras e longas e roupa dois números maiores. Sotaque portuense acentuado. Passaria fácil por um frade medieval, exceto pelos alargadores, tatuagens, anéis. Um provocador nato, se não fosse também um europeu caucasiano — gargalho (de ódio) sempre quando eles reclamam da vida e esquecem de informar que nos últimos 600 anos foram os antepassados deles que iniciaram toda a movimentação para cagar o mundo de Lima a Macau, de Ruanda a Belém do Pará, de Bangladesh a Icoaraci. E pensar que se não fossem esses filhos de uma puta estaríamos de boa a degustar nosso peixe assado de brava à beira do rio e a lutar com feras na floresta no nosso rito de passagem para nos transformar em homens adultos.

Por que vais me atirar, man?, Perguntou-me o carinha do Rap, todo cadenciado com uma ginga que não era dele.

É minha contribuição à arte nesta noite agradável, meu caro, devolvi.

No que ele soltou, virulento (perdão!), a balançar a cabeça e movimentar as mãos na altura do rosto, meio curvado pra frente:

É só mais uma forma burra,

torpe, foda e violenta.

Nessa vida já difícil, pobre,

podre, fraca, lenta.

O revólver é metáfora.

Meta fora, fora a hora,

vida afora, que te escapa

E a bala é um poema rude e ruge

o rugido de um panaca.

O poeta é eterno

não disse nada do modelo do meu terno

não disse nada do modelo do meu terno, meu bem,

Que tudo mais vá pro inferno, meu bem.

O poeta nunca morre,

Sobrevive a tiro, faca, susto, vício,

Caos, doença, descompasso, suplício.

É maldito, desgraçado,

do avesso, boquirroto.

fino faro, magro e torto,

faro fino, tolo e roto…

Já respondo sem vacilo,

oco farto, fardo e mouco …

Poeta bom, irmão,

é mesmo poeta morto.

E se matou com um calibre 22, que estava escondido embaixo do blusão. Buraco na têmpora, assim, anacrônico.

Aplaudi.

Aplaudimos.

Bravo, bravo. Clap, clap, clap.

Grande performance, a plateia murmurou. Até os velhotes com cara de cu para a poesia que vem das ruas não disfarçaram a admiração. Entortaram os lábios pra baixo e sacudiram a cabeça positivos.

Após o derradeiro gemido do artista, pedi licença, pulei por cima do cadáver e me retirei.

Deixei o local, antes dos canas e do rebecão chegarem. Não gosto de perguntas, menos ainda de policiais.

Na rua, um frio do caralho, encontrei o andarilho a declamar para um poste de luz e rir do que dizia, sozinho. Segui para casa já com tosse seca, cof, cof, cof. Foi o cigarro ou a estatística da pandemia? Mistério.

Abri uma garrafa de vinho, da promoção do Pingo Doce. Sentei para escrever essa prosa, que deveria ter nascido como um poema lírico e violento parido às portas do fim do mundo.

Não deu.

Ainda assim, estas palavras serão aclamadas em cem anos depois que os cientes descobrirem vacinas para a doença e a ignorância. Um declamador, belo lusitano de voz de cachoeira, vai abrir o livro em mais uma tertúlia quase secreta, na cave de um barzinho modesto e cheio de elã. Ao final da leitura, virão palmas efusivas de um punhado desimportante de gente muito limpa e muito culta, numa noite de segunda entre a fumaça turquesa de aromáticos charutos, muita pose e expressões inteligentes. Tudo isto quando não sobrar nem o pó deste poeta, que de bom não tem nada, morto pela falta de ar e reconhecimento do público.

(Vá ouvir Poetas)


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