Corona-fuga

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A decisão que adiei por seis meses foi tomada em um estalo. Não por mim, mas pelas circunstâncias. Passei noites e noites a pensar se voltava ou não do meu auto exílio profissional e pessoal na cidade do Porto, no gelado Norte português. Depois de mais de um ano no lugar, numa resistência teimosa em abraçá-lo, finalmente, tinha decidido que ficaria. Mas, quando se está longe e sozinho, ficar ou não ficar é o de menos. O que conta é largar as amarras do coração e amar o entorno. E, sim, apesar de toda reticência, de toda resistência, já amava aquela cidade luminosa e de vento insistente às margens de um rio dourado. Saí corrido sem sequer me despedir dela.

As coisas mudaram da noite pro dia.

Começou com a despedida de uma amiga. Ela sentiu o baque e decidiu cair fora nas primeiras notícias sobre o vírus. Imigrante, vulnerável pela crise, não quis pagar pra ver. Dois dias antes da partida, derrubamos umas garrafas de vinho e ela terminou a noite em lágrimas, mão na minha mão. A crise nem tinha mostrado as garras de todo ainda, mas, sensível, ela percebeu que o bicho ia pegar e se foi na segunda-feira de volta para Curitiba, grilada com a possibilidade de contágio.

Minha sensação de que era hora só aumentou, mas mantive meu prazo até o fim de abril, já com a primavera alta. Minha reserva financeira já dava sinais de exaustão e meu limite pessoal, meu cálculo seguro de pobre sempre precavido, havia passado do fim havia muito tempo. Foi um ano fértil para o ócio e para a felicidade. Muito vinho de boa safra, porres homéricos, comida boa, novas amizades, viagens, paisagens de arrombar a retina, reflexões sobre a vida, preguiça e prazer. Tudo tem um custo e a fatura sempre chega.

Foda-se, eu merecia.

Olho pra trás e me sinto imensamente privilegiado por ter vivido o que os ricos chamam de ano sabático. Eu, pobre coitado, das baixadas de Belém, para eles, os ricos, nascido para subalterno, feito para trabalhar como um cão, num shabbat prolongado. Vê se pode! Chamo de vagabundagem. Pura e simples. Sem culpa nenhuma, tampouco vergonha, depois de me foder por anos na rotina em redações e assessorias de imprensa, de sol a sol, de matéria a matéria, de release a release. Mas, estava na hora de voltar a produzir para o capital, ele não perdoa os que não são herdeiros. Estava à procura do ganha-pão antes da peste nos abater.

Já havia desistido de achar um trabalho de jornalista em Portugal. Com um mercado minúsculo e linguagem quase que impeditiva para brasileiros que não dominam o português luso, essa inserção seria uma tarefa para longo prazo, não para agora. De imediato, precisava descolar a grana para pagar os boletos. Valia tudo (ou quase tudo). Quando realmente estava disposto a usar minhas delicadas (e grandes) mãos de escritor em qualquer trabalho braçal, o coronavírus me pegou.

Não em contágio. Mas, nos efeitos devastadores que agora iniciam na economia portuguesa, que vinha em recuperação desde a Troika.

O primeiro sinal de que as coisas sairiam do lugar foram os papéis higiênicos. Um dia entrei em um supermercado e a prateleira dos rolos estava vazia. Estranhei. Mais à frente, buracos nas gôndolas de não perecíveis. Só havia pacotes de macarrões mais caros. Alerta. Nos outros dias, as ruas ficaram vazias. O uso de máscaras aumentou entre os poucos transeuntes. As estações de metro (não de metrô) também esvaziaram. Tosses ou espirros na via pública eram mais obscenos que botar o pau pra fora (exagero, mas era motivo de olhares reprovadores).

À noite, o Porto, que já é soturno de longe, virou uma cidade fantasma, fria e coberta de névoa e pavor dentro das casas com gente atenta às notícias que vinham da China, mas principalmente da Espanha e da combalida Itália, onde o número de mortos e casos cresce em nível assustador. Os alegres bares, cafés, tasquinhas e restaurantes fecharam as portas. Os turistas e os locais se escafederam. Deserto, silêncio. Os insistentes começaram a ser tocados pela polícia para irem para casa. Já se ouvia sobre demissões, falências técnicas de empresas e choro e ranger de dentes de brasileiros nas dezenas de grupos de oferta e procura de trabalho no Facebook.

Quando a Europa fechou as portas de entrada e Portugal e Espanha proibiram a circulação na fronteira, vislumbrei que poderia ficar preso no outro continente. As notícias sobre o decreto de Estado de Emergência em Portugal começaram a circular. Seria difícil chegar em Lisboa, caso acontecesse — pra quem não conhece, o Porto fica a mais ou menos três horas e meia da capital. Minha saída era necessariamente pelo aeroporto lisboeta. O discurso de barrar as fronteiras por causa do contágio se intensificou também no Brasil com pedidos para cessar voos internacionais em Brasília, o que mexeria em todo o sistema integrado da Infraero.

Previ o caos.

Sozinho e a contar apenas comigo, a sete mil quilômetros de um porto seguro, na noite de domingo reavaliei meu plano de ficar mais tempo por achar, inicialmente, que era uma crise menor. Ao ver o tamanho do bicho, decidi ir embora, de imediato. Era hora de começar a saga para voltar a Belém do Pará e largar a vida boa e solitária que o Porto me deu em um ano e dois meses. Na segunda de madrugada comprei as passagens e parti à noite num autocarro para Lisboa entre desconfianças e uma gangue de portugueses esquisitos. A sensação de fim de mundo só aumentou a partir dali.

Saga

Uma dica: não acumulem. Nunca. Sério. Tive um trabalho imenso para me desfazer das tralhas que juntei ao longo da estadia em Portugal. Dinheiro jogado fora, mais lixo no mundo, transtorno. Um dia inteiro pra decidir o que levar em uma mala grande e uma malinha de mão. Faz, refaz e pesa bagagem. Refaz de novo e de novo. Sem contar as perdas desnecessárias, como livros, por exemplo.

Minha dor maior ficou para meu melhor amigo na Terrinha, meu violão português. De som limpo, textura lisa e macia, madeira forte, encaixe perfeito na minha mão de tocador amador. Nunca cantei tanto, nunca toquei tanto, como o fiz em Portugal. No último dia, em conversa com uma amiga alemã carioca, de lindos olhos azuis, garota de Niterói que ficou na cidade, percebi que aquele canto era também solidão, como o canto dos pássaros engaiolados. Larguei pra trás meu instrumento na casa de outra amiga, essa paraense já radicada no Porto há uns anos. Bastos cabelos de Janis Joplin, cantora também, doida e valente. Tomamos um cafezinho, falamos da vida e a guitarra ficou em excelentes mãos.

Olhei o meu quarto quase vazio na saída. Não tinha mais jeito de casa, já não era mais meu. Era só a habitação que o senhorio me ofereceu, em novembro, depois de eu ter saído do meu terceiro endereço no Porto. Cheguei ali depois de uma insignificante crise pessoal e agora partia em meio aos anúncios do tão aguardado apocalipse de ponta a ponta no mundo. Não tive como não rir da comparação entre os dois momentos e lembrei das mesquinharias, cada vez mais miúdas, de gente que encontrei antes de ir para meu melhor sossego, na Rua da Constituição. Agora era tudo passado, ficou na poeira que não limpei do meu aposento gelado, de boa cama e noites em claro.

Minha colega que dividia o apartamento comigo me levou até o portão para nos despedirmos. Foram quase seis meses de convívio com aquela polaca linda do interior do Paraná, de enormes olhos verdes e uma risada de menina. Cara de brava, sotaque de R bonito e calejada em dividir moradas com gente de todo tipo. Nosso convívio era doce (até onde enxergava, talvez ela não pense assim), entre vinhos de dois euros, piadas com os sulistas, indignações com o Brasil de Bolsonaro e reclamações dos perrengues da vida de imigrante.

Nunca soube demonstrar muito bem meu afeto por ela (talvez por ninguém), mas, assim que a encontrei e sentamos à mesa da sala, tive empatia imediata e destinei amor àquela amizade recente e em consolidação ao meu jeito. E o meu jeito era agradá-la com o que ela adorava: comida. Acho que ela entendeu minha falta de tato e trocávamos pratos e porções na sala de estar e na cozinha nos intervalos de longo silêncio e isolamento, cada um no seu quarto, daquele apartamento enorme.

Na escada, prestes a sair, olhei-a antes de partir. Vestia o roupão de sempre, os olhos e os cabelos castanhos pareciam mais claros ainda. Estava séria e grave. Meu peito se apertou e tive vontade de chorar ao deixá-la ali, agora sozinha — como se minha presença ou minha ausência fizesse alguma diferença. Porém, engoli o nó na garganta. Mais uma vez, não disse quase nada sobre como gostava dela, como a via como uma parceira, uma irmã, uma amiga, como foi importante aquelas noites calados na sala, ela em um sofá e eu noutro, com a TV ligada em Friends. Na minha despedida truncada, só balbuciei que sentiria falta dela e que ela se cuidasse e, se as coisas apertassem, viesse embora pra o Brasil, que não fosse tão teimosa. Nos abraçamos e saí.

Entrei no Uber despedaçado por, finalmente, ter tomado a decisão que não queria desde que cheguei na cidade: voltar.

40 horas

Cena de Mad Max: Fury road (2015) — Reprodução

Tenho uma sorte e um azar: posso comprar passagens muito mais baratas para viajar, por minha irmã trabalhar em uma companhia aérea e, como parente, ter direito aos bilhetes a baixo custo. Sorte porque é muito barato. Azar porque, na condição de staff, só embarco se sobrarem vagas na aeronave, assentos que não foram ocupados por quem pagou o valor cheio. Em condições normais, é um pouco estressante, mas ok. Já em uma fuga do fim do mundo, ganha proporções dramáticas. Foi pela vantagem de preço que demorei quase 40 horas para chegar em casa entre o Porto e Belém. Com direito a uma morte dentro de um dos três voos que peguei e quase exaustão por privação de sono.

Minha jornada iniciou quando saí de casa, por volta das 22 horas do dia 16 de março de 2020, rumo ao Campo 24 de Agosto, na cidade do Porto. Saí por onde entrei, de autocarro até o Aeroporto em Lisboa. No caminho da estação, a cidade vazia e o motorista de Uber lusitano cheio de comentários xenófobos contra chineses e desinformação sobre a doença já indicavam o clima ruim.

Na rodoviária da Rede Nacional de Expressos, passageiros mascarados e silenciosos. Um grupo chamou atenção: quatro homens estranhos, portugueses, com um sotaque alheio ao do Porto, com um comportamento incomum, para dizer o mínimo. Falavam alto como se estivessem bêbados, empurravam-se e usavam lenços verdes no rosto com estampa de folhas de maconha. Um deles parecia ter algum tipo de transtorno mental, um careca baixinho entroncado, estilo Pitbull. Pareciam ter saído das turbas de mal feitores dos desertos de Mad Max. Esses caras vão fazer alguma merda na viagem, previ.

E fizeram.

Não como imaginei. Mas, fizeram.

O careca doido passou praticamente todo o percurso a cantar alto fados e hinos religiosos sobre o fim do mundo.

O desgraçado só parava quando dormia, hora em que roncava feito um porco, mais alto do que a cantoria. Só aumentou ainda mais o estresse e a apreensão no interior do veículo. Reclamei alto, mas depois calei. Não era hora de contato com estranhos, muito menos de trocar socos com uma gangue de desajustados.

Lisboa, quase quatro da manhã, finalmente.

Pela primeira vez, vi um aeroporto fechado.

Uma fila de passageiros com máscaras. Gente do mundo todo. Europeus, africanos, asiáticos, americanos do Sul e do Norte. No rosto, a preocupação e o medo um do outro. Liberaram a entrada logo depois que cheguei e a polícia aeroportuária orientava com alguma rispidez, que já não sei se era a típica da Europa ou por causa da situação: um por um, um por um, um por um! Entrei o mais rápido que pude. Consegui ficar na fila menor, a do outro lado de quem chegava pela área do estacionamento.

Do lado de dentro, o sistema de som orientava a cada dez minutos, mais ou menos: mantenham a distância de contenção social e reforcem os hábitos de higiene. A voz metálica de mulher repetia em português e inglês.

Minha apreensão era agora se eu embarcaria. Havia a informação de que o voo estava lotado, com overbooking de 30 pessoas a mais e cinco stand by (como chamam os beneficiários do direito de pagar mais barato na gíria aeroportuária). Significa exatamente o que a expressão indica: os que esperam até a última confirmação para saber se entram no avião ou não. Eu era o último deles, dentro dos critérios de espera.

Minha preocupação era não embarcar e ficar como Tom Hanks, em O Terminal, à espera do próximo voo, que só seria no dia seguinte, quando o estado de emergência seria decretado em Portugal e circular no país começaria a ficar cada vez mais difícil. Fora o pedido de fechamento do aeroporto de Brasília e o clamor para fechar as fronteiras. Estava realmente com medo de ficar impedido de sair e enfrentar tempos difíceis, sem grana e sozinho.

Ateu de meia tigela que sou lembrei dos pedidos que fiz quando amarrei uma fita de Nossa Senhora de Nazaré no pulso, no ano antes de ir embora de Belém. Segurei a fita gasta e desbotada e mentalizei a santa. Me senti ridículo e derrotado. Mas, pensei na imagem. Pensei também em Xangô, que um dia me disseram ser meu orixá, e na minha boa sorte da vida toda.

Cheguei no guichê e o atendente foi peremptório: voo lotado. Você só saberá se vai embarcar na porta da sala de embarque. Me deu o bilhete sem confirmação e eu parti para mais uma etapa de espera. Mais fila, mais incerteza, mais agonia, mais cansaço. Valei-me, Nazinha.

Lá dentro, os ricos que pagam assentos na primeira classe entravam nervosos já nas primeiras chamadas, todos de máscara e malas da Louis Vuitton originais. A conversa era sobre o vírus e toda o procedimento de chegada. Me senti Leonardo di Caprio, clandestino num navio prestes a afundar. Quando chegou quase no fim do embarque, fui até o supervisor da companhia e disse que voaria no seat jump se fosse preciso. Ele riu e me entregou a passagem com o número da poltrona.

Posso embarcar, então?

Só se quiser ir.

Agradeci e entrei, quase oito da manhã. Não tinha pregado os olhos.

Nunca tinha prestado atenção como as pessoas tossem e espirram em voos. A doença faz o olhar mudar para detalhes que não faziam a menor diferença antes. Eu era um dos poucos passageiros sem máscara. Na correria, não achei o equipamento nem luvas na cidade do Porto. Consegui apenas lenços umedecidos e um pouco de álcool para limpar as mãos. Protegia meu rosto com um cachecol, só pra efeito psicológico. Sabia que não faria a menor diferença. Ao meu lado, a imagem do século 21: um casal de rapazes de mãos dadas rumo ao Brasil. Ambos de luvas e máscara, ambos com medo do futuro, como eu.

Assisti a três filmes e levantei poucas vezes para ir ao banheiro nas 12 horas de viagem até São Paulo. Sempre que olhava as cerca de 300 pessoas nos assentos vinha a sensação de que se alguém ali estivesse doente não teria muito o que fazer. Todo mundo ia pegar aquela porra.

Chegamos na capital paulista às três e meia da tarde, tempo bom, céu nublado, vinte e oito graus. Eu com minha tosse de uma gripe mal curada de duas semanas a espalhar desconfiança entre os meus. A paranoia é real. Inclusive a minha.

Acreditei que a parte mais difícil tinha acabado, finalmente. Pelo menos, já havia chegado no Brasil. Mas, o próximo voo seria mais tenso e bizarro do que estava previsto.

Morte no avião

Photo by Suhyeon Choi on Unsplash

Paguei R$ 105 pra tomar banho e esticar as canelas numa sala VIP em Guarulhos. Estava me sentindo imundo e acabado e decidi comprar o serviço, apesar de contrariado com o preço. No entanto, foi o asseio mais caro e providencial da vida, lá adiante, perceberia. Meu voo para Belém só aconteceria às nove e quinze da noite com previsão de chegada quase uma da manhã na minha cidade. Mais uma etapa com stand by, a última!, mas foi fácil. No balcão, a atendente simpática despachou minhas malas e até me ofereceu escolha de assentos, coisa rara para quem viaja nessa condição.

No entanto, quando a esmola é demais, mesmo que não seja santo, desconfie.

Embarcamos e, na altura de Brasília, duas horas antes da chegada, pelo alto-falante, o piloto pediu auxílio de um médico voluntário.

Médico voluntário?

Alguém doente e passando mal. Se está mal e estamos numa pandemia, só pode ser o vírus!

Esse raciocínio deve ter passado na cabeça de 11 a cada dez passageiros daquele avião.

A doente era uma mulher.

Foi aquela correria dentro do avião. Comissárias em polvorosa, crianças chorosas, adultos estressados, olhos arregalados e pescoços esticados.

Acompanhei de longe a situação, mais ou menos na altura do assento de número dez, a uma boa distância de mim, que estava na poltrona 30, ao lado da janela.

Usaram respiração artificial, massagem cardíaca e nada. Todos os primeiros-socorros foram aplicados.

A mulher foi carregada. Vi quando dois homens a levaram no colo para área de entrada da porta dianteira. Usava jeans, tênis da Adidas e blusa cinza.

Muita gente correu para trás da aeronave com medo de contágio. Um casal de jovens tatuados com um bebê de colo me chamou atenção. Estavam apreensivos pelo filho.

Da cabine, outro aviso, perto da meia noite: vamos descer em Palmas, em Tocantins, para atendimento médico da passageira.

Fodeu!

Mais horas e horas de espera depois de tanto tempo sem dormir, quase esgotado. Não havia muito o que fazer. Era uma situação operacional totalmente atípica. Pro meu azar.

Depois veio a confirmação: a mulher morreu.

Mor-reu!

Fiquei em choque e sem acreditar na informação.

Desce todo mundo para sala de embarque da capital tocantinense. Aguardem orientações, disseram.

Abordei o atendente azarado da companhia aérea que estava no salão, em solo. O coitado achou que teria um plantão sossegado e estava assustado. Desviei com ginga de repórter e fiquei de frente para ele:

A mulher morreu de quê?

Senhor, não podemos informar.

O que? Numa pandemia, uma pessoa morre no avião e não podemos saber? Quero saber, sim.

Ela não morreu de coronavírus! Foi do coração!, ele revelou, muito nervoso.

Ah, bom. Obrigado!, devolvi.

O grupo se acomodou como pôde nas cadeiras duras da saleta e pensei em Lost, preso em uma fenda temporal com desconhecidos. Qual personagem eu assumiria? Era delírio de cansaço.

A espera foi dura e o avião só levantou voo quase cinco da manhã e cheguei em Belém depois das seis. O cadáver ficou pra trás e eu estava quase morto.

Soube no dia seguinte que a mulher, na verdade, havia morrido de overdose. Carregava no estômago 33 cápsulas de substâncias entorpecentes, cujo teor não foi divulgado. Morreu aos 28 anos, agonizante, como “mula”. Pelo menos, é o que dizem as notícias do dia sobre o incidente.

Isolamento

Quase 40 horas depois, desci na minha velha rua, no bairro da Pedreira, longe, muito longe do padrão do Porto, onde vivi nos últimos tempos. Antes de entrar em casa, pedi ao mortorista do Uber para desinfetar o local onde sentei, ficar longe das minhas malas e de mim. O homem ficou assustado.

Na garagem, um esquema montado para higienizar o viajante.

Tirei toda a roupa e pus na máquina de lavar já preparada com sabão. Limpei as malas e os sapatos com álcool e tomei banho de mangueira só de cueca para só depois entrar direto para meu quarto sem tocar em nada. Com exceção da gatinha Vitória, que olhava assustada o desconhecido que acabara de invadir o espaço dela, não vi ninguém. Nem mãe, nem avó, nem irmãos. Souberam que cheguei pelo WhatsApp. Me tranquei num isolamento com prazo para terminar em 15 dias por medo de contaminar as pessoas que amo. Isolado, agora escrevo.

Terminou, assim, minha corona-fuga e minha passagem por Portugal para começar a quarentena brasileira em meio aos primeiros rumores sobre a pandemia nessas bandas de cá. Por coincidência, no dia da minha chegada, foi registrado o primeiro caso de Codvid-19 na minha cidade. Não, não sou eu.

Enquanto escrevo, minha tosse diminuiu, não tive febre nem dificuldade para respirar. Mantenho a atenção nas notícias, distância de todos da minha família e minha fita de Nossa Senhora de Nazaré grudada com minha falsa descrença. Tenho surtos de esperança e desespero nessa crise que se inicia e algum medo do futuro. Guardo ainda muita vontade de rever os meus, os novos e os antigos meus, agora aqui do isolamento voluntário, além da saudade enorme dos amores, dos hábitos, das manias, dos parceiros e até da solidão que deixei pelo Porto além-mar.

Quem sabe um dia eu volte, quem sabe não volte nunca mais. Quem sabe fique por aqui ou aponte outro destino. Acho que peguei o vírus do expatriado, que não é mais de lugar nenhum.

Só sei que a vida é desse jeito, essa incerteza sem fim. Com ou sem apocalipse, na multidão ou isolado.

De resto, é isto.

Cuide-se. Lave as mãos e fique em casa. Essa porra vai passar.

(Vá ouvir Fado Tropical)


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