Esquerdomina

Leila Diniz no carnaval do Rio de Janeiro. Foto: Reprodução

Alalaô, ô, ô, ô. Mas que calor, ô, ô, ô.A bunda rebolava bem na frente dele. Enquanto observava o movimento, nem viu que ela olhou pra trás e empinou ainda mais o rabo. Era um fenômeno muscular e adiposo. Duas esferas perfeitas e amplas, com celulites matematicamente distribuídas, mordíveis, das que se exibem a cada pressão enquanto senta e dessenta, como mágica. A hot pant por cima da meia arrastão permitia intuir as duas covinhas no início do quadril, um quadril que se encaixaria como uma peça pré-fabricada nas mãos afoitas de quem agora era só desejo e nada mais.

Era gorda e a macia a mulher. Uma delícia extra large.

De decote comovente, peitos leitosos, de mamilos evidentes e um riso alegre e febril de 32 dois dentes em conjunção plena, enfileirados em harmonia. Os da arcada inferior faziam moldura para uma língua rosa, limpa, molhada e convidativa. Combinava com o cabelo cor de ferrugem. Tinha, no máximo, uns 30. Hipnotizado, acreditou em reciprocidade quando ela deu uma piscadela e jogou um beijo pra depois correr pra perto do trio elétrico.

Ele seguiu.

Tocou Amor de Quenga e ela deu um show. Leve e precisa. Mexia as carnes em sincronia e convicção. Uma bailarina do Faustão plus size. Era amor e fúria a mulher. Virou um copão de uma talagada só. Lambeu os beiços sem olhar pra ninguém. Provou a espuma e se provou, como quem sabe desde sempre como é gostosa em tudo, tanto quanto uma cerveja gelada em dia de calor. Um litro de uma vez e aquela habilidade pareceu ao homem um sinal divino.

Sempre que via a beleza revelada agradecia ao senhor, o mesmo da escola dominical. Só uma entidade superior seria capaz de produzir ao longo de centenas de milhares de anos uma evolução genética tão perfeita e só poderia ser o destino ter colocado aquela criatura no mesmo país, no mesmo estado, na mesma cidade, na mesmo rua, bem ali na sua frente.

Quando o coro de EI BOLSONARO VAI TOMAR NO CU começou, ela engatou junto. Berrava ritmada com as mãos, como quem grita palavras de ordem nas passeatas. Ele tomou mais um golão de batida de maracujá para festejar a descoberta, enfim, de mais um amor da sua vida à distância de um oi.

Vou pedir pra você voltar, vou pedi pra você ficar, eu te amo, eu te adoro, meu amooooooor.

E ela saiu aos pulos, agora levantada pela lembrança potente de Tim Maia. Agarrou uma amiga e tascou um beijo na boca. Nada demorado. Largou e riu da travessura. A outra devolveu com outro, mais lascivo, mais demorado, de língua. Depois se soltaram na desimportância daquela brincadeira de meninas. Ela olhou pra ele e deu um sorriso de canto de boca, maliciosa, e continuou a caminhada sem rumo dos carnavais.

Ele se empolgou e seguiu, de novo.

Já não olhava só pra bunda. Deixou a objetificação em segundo plano e passou para a fase perigosa da idealização daquela esquerdomina maravilha, que organizava o movimento, que orientava o carnaval, não somente no planalto central, mas no centro do mundo. Pensava nos beijos, nos menages, nas DRs, queria dormir de conchinha, assistir Netflix juntinhos, queria um romance pós-moderno, de amor livre, como já tinha ouvido falar. Almejava viagens às chapadas dos Veadeiros, dos Guimarães, Diamantina, ao Brasil profundo do Nordeste brasileiro ou às margens de rios de comunidades amazônicas onde fariam um filme, uma canção, um filho de nome simples, rústico, ancestral e plantariam a própria comida sem sacrifício animal nem glúten.

E olhava aqueles braços roliços e queria um abraço e atá-los na primeira cama que encontrasse para fodê-la chamando de meu meu amor. As batatas da perna de corredora e as coxas grossas com assaduras internas tão lindas e imperfeitas que harmonizavam com o conjunto todo para dar a impressão real de que não era só mais uma paixão instantânea ou uma miragem ou um alucinação etílica. Queria dominá-la, queria prendê-la para si, queria com força, tanta que as orelhas estavam quentes de tanto querer. As diferenças que se fodam, se as houvesse, ele pensou. E as existiam. Mas, tudo se ajusta, porra.

Oh, quanto glitter, Oh, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão.

A hora era agora.

Deu o primeiro passo em direção à deusa fofa, livre e descolada e já estava quase lá quando outro carinha, do nada, se interpôs entre ele e o alvo.

Chegou sem camisa, tênis da Nike e bermuda. Tinha um beque na mão. Tragou e ofereceu a ela, que, de pronto, deu uma bola. Puxou fundo, prendeu, engasgou um pouco, cof, cof, cof, e passou o cigarro para parceira ao lado, a mesma do beijo, uma negra alta, de olhos de amêndoas, black power, piercing no septo e empoderamento em dia. Um tesouro das minas da Guiné.

O intruso tinha quase dois metros de altura. Tórax de Superman esculpido diariamente por seu personal trainer, negra barba escanhoada por profissionais gabaritados (veja que não era qualquer barbeiro) com fios sedosos de, no mínimo, dez centímetros bem penteados com pente de madeira, hidratada e lustrada com cera especial dia-ria-men-te.

O galã usava um Rayban original. O haircut também estava em dia com um degradê pra lá de perfeito. Os dentes alinhados e clareados pareciam roupas brancas em um comercial de Omo. Ele ostentava o sorriso o tempo todo sem parecer forçado ou o Sílvio Santos. A pele do rosto de poros fechados não tinha um mísero cravo sequer, menos ainda qualquer cicatriz de acne ou mancha de sol. Não fosse pelo colar de Havaiano e a purpurina espalhada pelo corpo todo, que o inseria no contexto, ele estaria numa propaganda de relógios de corrida da Apple, facilmente. Correria compenetrado pela pista, à beira-mar, nas montanhas, apolíneo e viril.

Ao ver o havaiano de araque perto da beldade, recuou o pescoço para trás e, em segundos, percebeu-se, voltou à realidade.

Logo notou a barriga de cerveja, horrenda. Já sentia dificuldade de enxergar o próprio pau no mictório. A barba, cheia de falhas, era cortada a tesouradas em casa quando se lembrava ou havia algum evento especial para ir, como o aniversário da mãe. Olhou os pés enlameados, o All Star de 2002 imundo, já sem cor. A polo preta da Riachuelo não ornava com a bermuda de tactel comprada na C&A, que de tão folgada pelo uso deixava os fundilhos lá embaixo. Passou a mão nos poucos cabelos que ainda tinha, sentiu a boca secar. Será que escovei os dentes antes de sair de casa?, perguntou-se. Deu mais um gole e ficou ali à espera da vez.

Sou faraó. Prazer, minha mãe. Sou faraó, passeio sob o sol. Sou faraó, o rei da folia. Sou faraó e o Egito e a Bahia.

Viu os três animados. O havaiano da Smartfit berrava alguma coisa no ouvido das duas e ria. Elas devolviam no mesmo tom e na mesma brincadeira. Então, ele meio que se despediu, como é possível se despedir com o ouvido quase estourado por 110 decibéis de puro axé music e marchinhas.

Mesmo com a autoestima devastada, a esperança do folião se acendeu. Ele já tinha se perdido do pessoal que havia chegado junto pro bloco e agora se encontrava sozinho diante daquela doçura redonda e linda por quem ele cismou de entregar seus coração ou, pelo menos, descolar uma foda certa. Já não cria que seria tão fácil como pensou no começo.

O maldito modelo da Apple virou às costas para ir embora.

Aleluia! É agora ou nunca, vou lá, ele decidiu.

Foi quando a gordinha puxou o bonitão de volta pelo braço e lhe lascou um beijo guloso na boca. Atracou no pescoço e sarrou a xota na coxa musculosa do boy como se não houvesse amanhã nem leis contra ato obsceno em público.

Pra completar, a acompanhante Rainha do Nilo entrou na dança e se perderam num beijo triplo, elétrico, trovejante e desesperado, que nem deus poderia separar. Estavam com o diabo no couro e as línguas enlouquecidas de festa, de desejo, de liberdade em estado bruto no meio da rua.

Tem festa no Candeal, batuque no Canjerê. Eu vou levar meu timbau, tocar samba pra você.

A música ecoou, os foliões rugiram e eles foram tragados pela multidão, já doida, furiosa e esquecida de tudo àquela hora.

Alguém bateu no copo do folião emocionado e ele tomou um banho involuntário. No empurra-empurra, a doleira caiu no chão. Foi-se o celular e o dinheiro. Tentou se abaixar para tentar encontrar e recolher a dignidade, mas era tarde demais. Desequilibrou-se e agarrou sem querer nos peitos de uma bela madame de seus 40 anos turbinada no silicone. Levou um chega pra lá e um safanão do marido que lhe estourou o supercílio. Quase foi preso por assédio e importunação sexual. Atordoado fugiu pra calçada, sem uma banda do sapato nem entender como aconteceu tudo tão rápido.

Sangue nos olhos, literalmente.

O bloco se distanciou e ele caminhou sozinho por uma transversal. Sem ter como pegar um Uber, voltou a pé pra casa, quase uma hora de caminhada. Fogo pelas vendas, nó na garganta do choro de raiva quase pra explodir, putaço da vida. Aquela gorda filha de uma puta, escrota do caralho, feminista vagabunda do inferno, maconheira fedida, amaldiçoou.

Na geladeira, nada, com exceção de meia garrafa de água e uma cebola. Dormiria com fome. Ligou a tevê na Globo para ver o desfile das Escolas de Samba do Rio e estava lá. Seu candidato vencedor representado como um palhaço fazendo arminha com a mão.

A quilômetros dali, a cidade explodia na única alegria possível naquele tempo de desgosto, impotência e muito ódio encruado.

(Vá ouvir Noite dos mascarados)


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