Re-introspecto

Estação Ferroviária São Bento, cidade do Porto, dezembro de 2019.

Há 30 minutos, estou em um trem. Há três horas estava na cama. Há 12, o dia amanheceu azul, como poucos azuis que já vi. Há um ano, faltavam poucos dias pr’eu ir embora. Há seis meses, já estava cansado de tudo. Há cinco, mais ou menos, perdi a bússola e quebrei o GPS. Há mais de 40, é sempre assim. Em dois dias acaba este ano e serão 365 novas chances de acerto e erro. Em pouco mais de mês, faço 41. Há tempos a sensação de não pertencer a lugar nenhum me mora. Há sempre um pedra no caminho, no caminho há sempre uma pedra. Houve dias que não foram assim, mas ficaram lá atrás, numa rua de terra batida, numa casa de madeira, num quintal com abieiros, na aurora da minha vida, há tantas luas. Há um segundo desisti do poema e me proseei sobre hoje.

Entrei num trem qualquer, de janelas empoeiradas e assentos rubros, pra escrever e ver a luz do dia azul, como poucos nesse tempo chuvoso daqui. Estou a caminho de uma cidade que já conheço, a cidade primeira, talvez pelo desejo de estar na minha cidade primeira e, ao mesmo tempo, não estar. Desejo um retrospecto, mas tudo anda tão repetitivo e comum. Todos reviram e reviraram o ano nas redes, nas rodas. Tudo tão igual.

Recordo que nunca quis ser igual. Aos 7, percebi que todos os moleques da minha sala de aula queriam ser engraçados e, então, me tornei mais introspectivo e inviável na escola. Me enamorei do mistério ainda cedo. Ao ponto, de crer que não era notado e ter a impressão de que não lembravam do meu rosto, não sabiam quem eu era. A sensação perdurou por quase dez anos até se entranhar. Me esgueirava de mim e me perguntava se eu existia para descobrir que sim, todas as manhãs, manhãs iguais, de banho gelado, uniforme amassado, café preto e minha mãe ligada no rádio ao som de Roberto. Até que o tempo passou, uma mulher me viu e me quis, também em um fundo de quintal, desta vez sem árvores. Quando as luzes da festa se apagaram, ela me levou para os degraus da escada da cozinha e me beijou como se eu fosse o único, o último, o príncipe. E senti, pela primeira vez em meus dedos, o charco que as mulheres expelem quando desejam, lúbricas, ávidas, trêmulas, mórbidas por quererem a morte, a pequena morte. E essas proparoxítonas todas fizeram sentido e retornei daquela primeira longa ausência de mim.

Me achei naquela mulher primeira, cujo cheiro e modos recordo até hoje. O hálito, o líquido e o hábito de ler. Um dia, suada em minhas mãos, pressionada contra a parede no escuro do pátio da casa, me falou de um livro, A idade da razão, e me entregou outro por eu não estar pronto para o primeiro: Vastas emoções e pensamentos imperfeitos. Ela estava certa, porque nunca estive preparado pra nada, em idade alguma. E o título me serviu como um resumo do que viria a ser meu caminho, um começo pra querer chegar em algum lugar que nem sabia qual era. Dele, lembro de diamantes, trapaças e da palavra escarlate, como as poltronas do trem. Dela, de pelos, mucos, dentes, desilusão e da primeira vez que pensei em envelhecer junto com alguém, inocente que eu era.

Há mais de 25 anos desde então. Há tempos envelheci. Ha tempos o fiz sozinho, sem a mulher primeira ou nenhuma outra. Há dias que faz alguma falta, outros, não. Há dias que é apenas dia de entrar no trem e escrever. Há dias que se começa um poema e se escorrega na crônica, no tempo, sempre adiante, e a prosa se impõe, como o trem. O primeiro trem, a primeira cidade e a espera da primeira mulher. Não a da festa, a do quintal, a da escada. Mas, a que ainda virá depois de tanto tempo para reinaugurar algo que esqueci.

Há um retrospecto entalado, sim. Há uma vontade de não ser igual e a palavra solidão, meio triste, a pairar no ar, assim, num país que aboliu o gerúndio. Há necessidade de falar dela, porque, houve um tempo, em que alguém cismou que invocar esse fantasma traria, de imediato, maldição e ele se ampliaria, tal cortina grossa na janela, tal lençol branco no varal. Há ainda essas imagens domésticas e das casas por onde passei neste ano, que, mesmo com gente dentro, pareciam vazias e eu, nos cômodos comuns, em passo de gato, uma visagem do Norte tropical em latitude errada, em um Norte muito longe do meu. Há essa sensação de perdição, de sala vazia, de quartos fechados, de cheiro de mofo, de poucas palavras ou nenhuma palavra dita e algumas guardadas para não sobreviverem fora das gêneses delas. Há só o vagão vazio dessas palavras, que em sonhos se transformam em reuniões ruidosas e solares, azuis, com gente expansiva a contar a vida sem medo, a deixar o sangue fluir nas veias sem freio e despejar sabor nesse clima insosso, nessa dança anódina sozinho no salão.

Há essa cautela real em exagero em um ano de passos curtos e lentos, em dias luminosos e frios para os meus padrões equatoriais; e secos, em qualquer sentido, onde demonstrar emoção passou a ser alvo de censura e enxovalho. Há um remédio amargo para esconder tudo que causa repulsa à essa gente careta e covarde, mas que me mantém na cápsula que elas querem, encolhido e calado, como elas gostam.

Há, por fim, esse trem em direção à cidade primeira, onde desço sem gerúndio, sem rumo, sem quintais nem escadas, para ver as luzes de um Natal que passou e seus palácios cheios de amplos salões sem ninguém dentro e suas ruínas de pedra, passado, pó e paciência, como uma estaca a bater contínua. E caminho nessas velharias e penso nesse ano mofado que se acaba, de consequências de escolhas, de amizades nenhuma, de amores à distâncias, de escutar a própria voz e se falar como quem fala ao único irmão, ao último sobrevivente do planeta: e agora?

Há minha intenção de parar, mas, que nada, paro coisa nenhuma. Há esse retrospecto, mas ignoro, porque a vida é contínua e fluída e o ano novo apenas luzes fugazes que morrem no céu.

Há só essa certeza e muitos trens para tomar ainda.

(Vá ouvir O trem azul)


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