Inimigo

Aqui não é hora de conversar. Era o que ela dizia, pouco antes de tirar a roupa. Chegava quase sempre depois do almoço. Num horário de sesta. Pra fazer de tudo. Menos dormir.

Ria nua, de dentro das sardas, por trás das não sei quantas tatuagens. Parava o carro no portão, óculos escuros, atravessava a casa, já quase sem cheiro da refeição recente, e subia as escadas em um fôlego só, com a musculatura, os olhos e fome de onça que tinha. Não demorava a miar dentro do forno que era o quarto a nos cozinhar até umas duas da tarde.

As coisas começaram quando me mostrou um piercing. Na buceta. Assim, naturalmente. Obviamente, eu quis ver. Na verdade, insisti, curioso que sou. Entre uma provocação e outra, ela enviou a foto. A Internet 2.0. ainda era uma ilusão difusa na cabeça dos cientistas da computação. Usávamos o Messenger velho de guerra, eu na frente de um velho monitor de carcaça amarelada. Mandou a imagem de um ângulo tão fechado, que o adereço poderia ser qualquer coisa ou estar em qualquer lugar. Gargalhou da minha frustração e da minha ingenuidade. Acha que é fácil assim? Hahahaha.

Antes, bem antes, havia se queixado do quase marido, nas confidências que me fez. Era um homem ocupado, conhecido entre os seus, profissional respeitado, inventivo, cheio de iniciativa e vaidade. Antes de ela contar os bastidores daquele meio matrimônio, eu já nutria certo ódio e preguiça do sujeito, como nutro ódio e preguiça de todo esposo. O que devia ser recíproco porque uma nuvem cinzenta emanou nas vezes que nos esbarrávamos na nossa pequena vila de pescadores de sonhos. Dois cavalheiros, trocávamos farpas amistosas na delirante aldeia global, não raro por política, com alguma ironia, humor e até compaixão um pelo outro. Nós, pobres diabos.

As confidências entre mim e ela ficaram frequentes e cada vez mais íntimas, a prova de que entre duas pessoas, a primeira guarda que baixa é a da língua. A nossa estava baixa havia algum tempo. Mas, fingia não perceber, porque, por mais óbvio que fosse, as circunstâncias não eram favoráveis por motivos mais evidentes ainda. Fora a minha baixa autoestima de sempre, de um vira-latas diante de uma fera.

Mas, o diabo atenta e a coragem aparece quando menos se espera. E, ao perceber a chance, mantive a velha tática dos velhos da grande arte. Soltava jabes e me movimentava ao redor, sem muito jeito, mas com vontade. Voe como uma borboleta e ferroe como uma abelha. Ela escancarava os dentes e baixava mais ainda as luvas. Contava a vida, mostrava velhas fotos da época de modelo, ligava o vídeo enquanto tomava banho, fazia uma piada inteligente, esmagava minha cara séria, leve, leve. Eu esquecia a luta e precisava retomar o ritmo sempre. O último assalto seria um cruzado de direita no queixo em quem estivesse mais cansado e zonzo.

O tão esperado nocaute aconteceu num dia em que estava sozinha. O boy foi convocado a um compromisso, daqueles inadiáveis. À essa altura, nossas conversas não eram mais tão discretas e ela apareceu já quase meia noite. Era uma voltinha só pra comer alguma coisa, quebrar o gelo da distância. Paramos na rua mais famosa da cidade e, depois de alguma tensão, sem criatividade alguma fomos parar num drive-in, tipo de lugar que nunca havia entrado por jamais ter um carro.

Ouvimos os gemidos que vinham das outras garagens com alguma curiosidade e nervosismo. Foder, como comer, nos lembra que somos como cachorros, macacos, gatos e golfinhos. Na imensa fileira de cabines, as mulheres uivavam como lobas e os homens grunhiam como porcos.

Nos beijamos no penumbra e, em algum momento, ela falou que não gostava dos próprios seios. Ou foi antes de entrar? Pedi pra vê-los e ela os exibiu. Duas massas perfeitas de mamilos grandes e rosados. Mamei como um órfão, como se tivesse nascido para aquilo. No rádio, uma canção e ela ficou à vontade na noite úmida, naquela impessoalidade toda daquele lugar horroroso.

Vi as tatuagens, o ventre com a joia no clitóris, os músculos do corpo, a pele alva repleta de sinais e os olhos felinos resplandecentes no escuro. Não era a posição preferida dela, mas ficou de quatro e trepamos até bem para uma primeira vez, comigo ainda sem acreditar direito no inusitado daquele coito clandestino em um dia de previsão zero para acontecer algo de extraordinário.

Depois do drive-in, vieram os encontros do intervalo, em casa, onde ela era rainha no meu piso xadrez. Uma deusa que entrava e saia da minha rotina, às vezes, com o sorriso bobo e o olhar baixo de um cigarrinho de cannabis ou haxixe. Uma vênus na floresta tropical pós adolescente vigorosa e moderna diante do meu anacronismo forçado para ser velho antes do tempo.

Quis roubá-la pra mim muitas vezes e com ela aprendi a dizer eu te amo, quando, na verdade, estava apenas entorpecido pela demência química da paixão, sem nenhuma culpa ou vergonha na cara. Era uma festa de suor, cuspe, sangue, urina, fezes, sêmen, muco e dopamina sempre. Um vício escorregadio, ácido e inconsequente no nosso esconderijo doméstico, onde eu vasculhava-lhe a boca, o sexo, o cu, as axilas, o vão dos dedos dos pés e entregava minha alma depois de morrer nas tardes em que ela aparecia.

Lá fora o inimigo deveria estar enfurnado na sala do seu alto cargo a dar ordens, receber elogios e se sentir importante, a criar estratégias e acumular prestígio e dinheiro. Ávido, nervoso, elétrico, como pouco fora da idade para ser um yuppie amazônico, mas cheio de viço e marra. Enquanto a gente só se derretia, entregues à irresponsabilidade, tudo de graça. Quantos telefonemas de hoje não vou poder ir eu fiz pro trabalho para não perder o fio daquele amor inventado?

Porém, como tudo nessa vida, as coisas esfriaram.

Um dia ela ligou. Chorava, sentida. Mais uma briga, mais uma ferida no coração selvagem. Não conseguia se desvencilhar da armadilha que era aquela relação vencida, mofada. Eu não conseguia fazer nada e talvez nem quisesse por falta de coragem ou por saber que não adiantaria nada. Ou ainda, que nosso lugar era no segredo, enfurnados, longe do mundo. Creio que as coisas se quebraram um pouco ali, quando entendi que era um veneno que eu não tinha o antídoto ou por ter percebido que, o que era um banquete pra mim, pra ela era só um aperitivo sem importância.

Resignado, a voz na minha cabeça me dizia, deixe ir, não fique, não é seu. Deixei, não fiquei, não era minha, nem de ninguém. Nos largamos aos poucos, sem dramas, sustos ou traumas.

Meses depois, me procurou assustada ao saber por um amigo em comum que eu estava prostrado, à beira da morte. Definhava e não duraria, diziam por aí. Mais lágrimas, de novo. E, contraditoriamente, recordei dos risos no calor absurdo em cima daquele colchão velho e manchado, outrora antro de gozo e sussurro, agora meu leito derradeiro.

Desmenti os boatos, sem muita certeza. Meu diagnóstico era real até então, mas, driblava a realidade ao emular uma valentia, que era apenas a certeza que morreria sem tratamento, sem ajuda, sem dignidade, pobre e sem nada pra deixar. Que nada, não vai ser dessa vez, eu mentia. Ela acalmou e o assunto, antes de mim, morreu.

Lembro-me bem da conversa. Foi o dia que percebi que o meu fim era assunto de outras pessoas. Até o momento que era um semi segredo, tinha esperança de ser somente um delírio autodestrutivo ou pesadelo de um sono à tarde. Não era.

Fechei os olhos por medo. Não de morrer, mas de não ter vivido. Pelos meus cálculos, faltava menos de um ano, se muito. Restava esperar.

O telefone ainda mas mãos, ouvi nítido de novo a voz de pantera macia e pálida a largar as roupas pelo chão na minha lembrança:

aqui não é hora de conversar.

E calei mais certo de que morreria.

(Vá ouvir Flor da idade)


Se você gostou do texto, deixe aplausos, faça um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Facebook, Twitter e Instagram.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s