Bye, bye, Brasil

Cena do filme Bye, bye, Brasil, de Cacá Diegues. Wilker e Beth Faria nas ruas de Altamira, na década de 1970

Faz quase dois anos. Entupi o carro com tudo que restou e não vendi da vida que tive em Altamira, no interior do Pará. Sobrou quase nada. Deixei a cidade no raiar do dia depois de dois pares de anos a camelar de sol a sol. À frente, dez horas de estrada com o carro trepidante por uma falha mecânica. Minha vida também estava estremecida.

Havia perdido o emprego e sabia exatamente os desdobramentos dessa perda. Meu casamento estava falido havia mais de ano e as incertezas financeiras me rondavam depois de 4 anos de bonança e excessos com viagens e exibições egoicas num espetáculo que eu já estava de saco cheio de protagonizar. A poeira da Transamazônica era o que me restava. Estava sozinho e perdido, como nunca estive. Ou sempre estive, mas com pouca ou nenhuma consciência dessa condição. Dessa vez, não. Eu sabia de tudo.

Belém era pra onde não queria voltar.

Principalmente, pra uma casa que nunca seria a minha e não foi e pra uma vida que eu já não vislumbrava nenhum sentido há tempos. Estava sendo arrastado pelos cabelos a uma realidade que queria evitar a qualquer custo e, ao mesmo tempo, me afogar nela pra morrer. Sim, eu queria morrer. E, de fato, morri.

A primeira parada em Belém, num posto de gasolina, veio como um amortecimento de consciência. Tão pesado que comprei um limpador de para-brisa a cem reais de um ambulante, sem pensar, coisa que nunca faço.

Olhei o e-mail pelo celular e vi a tábua de salvação. Como mágica ou uma falha de roteiro, um convite de uma desconhecida pra um novo emprego. Era Daniela, um anjo enviado pra me dizer que tudo se encaixa nas horas mais impróprias. Mesmo pra um descrente de tudo, como eu. Era meu novo trabalho e, de certa forma, o começo de novas histórias, a continuação da vida.

Naquele ano, deixei pra trás as vaidades adquiridas com minha vida no meu antigo reino. Até os objetos não existem mais. O carro, transportador dos espólios de guerra, perdeu-se também. Me livrei das amarras que me sufocavam e me reaproximei de mim. Caí em mim e voltei pra mim pra ser o que eu fui. Ou melhor: me inspirei no que fui pra me tornar o eu de hoje, a quem acolhi e curei de todo mal que fiz e me deixei fazer.

Belém me acolheu de novo. O berço de onde saí a rogar cobras e lagartos e me ensinou uma lição nesse retorno e continua a ensinar todo dia.

Meus amigos me acolheram nas conversas, nas suas casas, nos bares, nas ruas, nos impactos de suas vidas modificadas em quase cinco anos da minha ausência naquela volta. Minha família me recebeu, como se eu tivesse ido à esquina e tivesse voltado nu. Me abrigaram dentro dos nossos códigos de afetos e traumas familiares. De corpo estranho, fui cicatrizado na ferida aberta da cidade.

Era eu, de novo, no meu quarto modesto, no meu bairro da Pedreira, a viver as histórias que escolhi, a morrer nos meus próprios pecados, a regozijar minhas virtudes, a acalentar meus vícios e amores no meu colchão suado. Era eu, de novo, a redescobrir meu lugar e a minha gente.

Engana-se quem pensou que a vida amoleceu, quase dois anos depois. Ela continua feroz, cheia de percalços, agora mais longe da velha casa. Mas, ali cimentei com alguma paciência novos caminhos. Hoje, digo, sem modéstias, fiz tudo certo para pagar pra ver o que queria viver de perto. Pode ter sido uma escolha duvidosa, porém, foi exclusivamente minha.

Nada paga a liberdade de enxergar a vida de onde a gente quer e do jeito que acha melhor. Viver por si e para si paga qualquer risco, apaga qualquer custo. Como é prazeroso se expor aos perigos e aos erros que você mesmo cometeu, morrer do próprio veneno e arrancar os trilhos de um trem em sentido único e ir pra onde der na telha, em ziguezague, repleto de medo e de esperança, de pavor e alegria. Sem esquecer que as tristezas, as imperfeições, os fracassos fazem parte. Existem pra lembrar que você é falho e, paralelamente, ainda com eles em sua cola, pode avançar tranquilo e em paz.

Ainda enxergo a poeira da estrada e o que ficou pra trás. Ainda tenho o gosto de todo o mal-estar e desolamento de compreender as consequências de largar tudo pelo caminho. Mas, a vida muda e a gente precisa apenas seguir pra passar pelo imponderável ou as catástrofes já previstas quando se tem consciência de si.

A vida muda sempre.

É ótimo que seja assim pra outras chances, outros eus, outros personagens, outras poeiras pra comer, outras cidades e outras vidas pra descobrir.

Foi bom descobrir essas obviedades todas sozinho e pensar hoje que está preparado para o que vier.

(Texto adaptado do meu perfil do Facebook. Escrevi quando fez um ano que saí da uma vida que quase nem lembro mais que vivi).

(Vá ouvir Bye, bye, Brasil).

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