Burguês safado

Mia Farrow e Robert Redford em O Grande Gatsby, de 1974.

Faz pouco tempo, estive em uma mesa de bar com semi-conhecidos, na minha cidade, depois de um longo tempo fora. Foi uma daquelas noites de suor e cerveja que o bar fecha e todo mundo pergunta: onde é agora? Meu grupo encontrou outro, uns gatos pingados, e nos juntamos na mesma dúvida e sede. Pra mim, é sempre penoso, estranho e desagradável me reunir com quem pouco conheço, não que eu cultive essa antipatia gratuita de pós-adolescente promotor do que chamam de antissocial. Além do mais, depois do terceiro ou quarto copo, tudo que vier, eu topo, tudo que vier, vem bem. Se deixam, viro um embaixador dos Estados Unidos, mesmo sem saber fritar hambúrguer e my english is almost nonexistent. Fomos, então, ao último e velho conhecido pé-sujo em funcionamento, desses sem porta e garçom zumbi a terminar os trabalhos.

Já estava calibrado no nível de reduzir o mundo a uma pequena comunidade e acolher a todos como quase irmãos, quando um prodígio da rodinha soltou a pérola sobre imigrar. Era uma mocinha de uns 20 e poucos anos, gorducha, óculos de aros grossos, um ar blasé, pele clara, uma imitação suada das meninas da Vila Madalena, fruto perfeito dessa geração que nasce consciente de tudo, muito experimentados nas suas vivências no pátio da escola e no barzinho da Facul. Lançou algo como: muito burguês ir morar em Portugal.

Silêncio de meio segundo.

Gerou certo desconforto a declaração. O crush dela, um DJ tropical famosinho entre os seus, deu uma pequena cutucada na polemista, meio nervoso, disse baixinho: ele mora eu Portugal, apontando pra mim.

Primeiro eu ri, depois fiquei assim.

Já me achei um burguês safado.

Eu, traidor do proletariado marxista-leninista, decepção rifada ao mercado para os da geração Y pós-milenial, aquele garoto que ia mudar o mundo, agora frequenta as baladinhas estudantis europeias de 15 euros, mesmo sem ter mais idade pra isso, nem pra ser chamado de garoto, consumidor de maconha comprada na favela para passar entre os maconhistas da classe média. Cadê o Matias nessas horas quando se precisa dele?

Respira, respira. Engole a saliva, dá um gole na Draft.

Guardei a acusação indireta para depois desmontar o conceito histórica e me prevenir de contaminações. Já estava mais do que descartado a parte de pertencer à burguesia. Meio de produção nenhum, possuidor apenas da força de trabalho e alvo já havia algum tempo da exploratória e aviltante mais-valia dos tubarões do mercado de trabalho.

Depois perguntei a mim mesmo se era herdeiro e vivia às custas de alguém, uma boa vida de playboy na pérgola de uma grande piscina com meus bons drinks. Resposta negativa de novo. Lembrei do pobre espólio de meu pai, que partiu desta numa pobreza franciscana incontestável, sem plano de saúde e dependente do SUS. Minha mãe, mais viva do que nunca, sua de sol a sol para sobreviver ao mundo-cão que é o Brasil. Retaguarda? De ninguém. Só eu e eu, porque até nisso quis minha teimosia me boicotar e me pôs de flerte com o ateísmo.

Olhei para os jovens muito risonhos que estavam à mesa. Mais uma draft, campeão!

Como é boa a juventude e imersa numa realidade estreita e feita sob medida — como fui um idoso amargurado e invejoso dizendo isso. Mal sabem eles que um bom poema leva anos, como diria o velho samurai de Curitiba. Cinco anos recusando a bola, mais cinco lavando carros, mais nove levando fora da vizinha, mais dez atordoado e deprimido numa redação de jornal, mais cinco na escravidão das assessorias, três mudando de cidade, 20 cultivando a barriga na beira dos balcões, dois andando sozinho, mais um para se desiludir e desistir de tudo e nadar até a outra margem do oceano morrendo de medo de perder o saco minúsculo de dinheiro que acumulou nesse tempo.

Burguês safado… ora, ora, respeitem meus cabelos, brancos.

Mas, ok, ok, ok, jovens, não posso reclamar.

No fim das contas, a gente envelhece e caminha para se tornar mesmo quem a gente nem reconhece. O papel de burguês safado ainda me recuso todos, sem deixar de perceber meus pares vestindo o figurino sem nenhum pudor. Alguns num empreendedorismo patético e vexaminoso de explorar outros iguais, outros como capachos nas corporações sonhando com o dia que vão sentar à mesa com os donos e brindar essa falsa cortesia que os ricos têm com qualquer um que não tenha o mesmo DNA.

Fiz bem tarde os caminhos que me trouxeram onde estou, como já falei aqui, e não nego meus privilégios. Moro até hoje na mesma baixada brasileira da aurora da minha vida, minhas casas foram de madeira e inundadas pela chuva até o dia que ergui uma nova casa eu mesmo — e foram mais cinco anos nisso, Leminski. Fui ter TV em casa só aos 10, telefone aos 16, celular aos 23, computador aos 25 já trabalhando como repórter. A lista de sinais de consumo tardio de acordo com os padrões da classe média segue infinda.

Ao longo da vida, vi minha geração se perder por aí. Os moleques que aprenderam a ler comigo na mesma escolinha: mortos a bala; o meu melhor amigo da primeira infância: dez tiros; meu rival de briga de rua: seis tiros. E tantos outros que sumiram por aí ou estão hoje invisíveis em qualquer corre para garantir o da comida. Aos 20, já estavam todos envelhecidos, tristes e endividados, numa miséria hereditária e seus únicos bens: a prole.

Meu destino era outro, bem longe da Europa, como se pode depreender. Pela lógica corrente para os da minha cor e da minha classe, deveria estar morto, preso ou ultra explorado em uma grande de rede de consumo de varejo.

Como escapei?

Não apostaria numa resposta matemática, no entanto, tenho minhas teorias. Não passam por alguma merda fácil que envolva merecimento ou sacrifícios pessoais que terminam na glória ou na promoção ao cargo de gerente, coisa que nunca nem vi.

Agora percebo que, dentre os pobres, não era o mais pobre e tive uma série de garantias básicas, que, diante da situação do Brasil, são encaradas como verdadeiros privilégios. Nasci homem, hétero e cis. Comi três refeições todos os dias e tive adultos responsáveis por perto sempre. Apesar de modesta, nossa casa sempre foi nossa, longe de despejos e mudanças intermináveis. Contei com um pai meio carrasco e reto de caráter, uma avó cautelosa e uma mãe esperançosa no futuro na tua cola.

Pensando bem, jovens, burguês safado até que não. Mas, presentemente, eu posso me considerar um sujeito de sorte. Estou são, salvo e forte, etc.

Sobre Portugal… bom, é outra história. Um dia escrevo aqui sobre quem são, como vivem, o que comem e como se reproduzem os brasileiros que cá estão.

(Vá ouvir Loteira Babilônia, do Raul Seixas, e Sujeito de Sorte, de Belchior).w

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