À esquerda

Foto: Ricardo Stuckert

Meu pai era um nordestino dos brabos e de grande coração. Tinha na sua cabeça grande e chata, a qual herdei tamanho e formato com muito gosto, a ideologia do trabalho como salvação, uma proto meritocracia baseada na força dos braços e no suor da testa. Passou a vida só trabalhando e xingando de preguiçoso quem não adotava seu modelo. Em 1989, meu pai estava com Collor, também nordestino e que usava o mesmo discurso para colocar o Brasil no mapa das grandes economias globais, além do manjado mantra contra a corrupção. “Vamos acabar com os marajás!”, ele berrava. Meu pai caiu direitinho. E eu também. Mas, eu tinha só dez anos.

Ele e eu, iludidos pela propaganda, víamos no Collor um herói cheio de marra e elã. Já Lula, o arquival do engomadinho de Alagoas, a gente não queria nem pintado de ouro. Era o barbudo desgraçado que ia roubar uma televisão de quem tivesse duas. E, olha, que eu não tinha nenhuma em casa. Via tevê na casa da dona Maria José, nossa vizinha cujo marido trabalhava no Iraque e tinha condições de ter uma bonitona, colorida, plantada na sala com seu imenso tubo de imagem. Além do mais, o petista ia mudar as cores da bandeira brasileira. Ah, não, isso não. Adivinhem a nova cor…vermelha, é óbvio.

Collor venceu e eu vibrei.

Em 1992, aos 12 anos, mais maduro e mais taludinho, percebi a merda que eu e papai tínhamos feito. Já havia rolado o confisco de poupanças — meu pai chorava sempre que o dinheiro que tinha guardado equivalia a 18 fuscas e na devolução não deu pra adquirir nem meio Volkswagen. O Caçador de Marajás estava implicado até o talo no Caso PC Farias e o impeachment comeu no centro, escandalizando a nação.

Mas, meu pai era teimoso e bateu o pé. Para ele, era tudo armação contra o alagoano de saco roxo. Sem dar nome aos bois nem usar de anglicismos, ele foi um pioneiro na crença em uma fake news às avessas. Era tudo culpa dos ladrões de Brasília que não aceitaram a nova liderança, um nordestino.

Em 1994, depois de Itamar e o Plano Real, eu tinha 15 anos e achava que o mundo dos livros me salvaria. Fiquei muito empolgado com FHC, um intelectual na presidência! Como poderia dar errado um intelectual na presidência? Ainda bem que eu não tinha idade para votar, porque o que tinha para dar errado deu muito errado.

O sociólogo da Sorbone abraçou o neoliberalismo e, sem escapatória, a subserviência ao FMI e Banco Mundial. Para os sem diploma, como nós, foi um tempo de aflição com desemprego, arrocho salarial, privatizações, corrupção, proselitismo, fisiologismo, sucateamento e desmonte dos serviços públicos. Em suma, o Brasil na merda, mas a inflação controlada e a moeda nacional rumo à valorização junto ao dólar, ora vejam.

Papai camelava de sol a sol, como sempre. Driblava a macroeconomia cruel como podia na microeconomia do aperto de cintos e ainda achava que Lula era uma ameaça à televisão, que já tínhamos, comprada em suaves 36 prestações na Arapuã (ligadona em você) e as parcelas reajustadas pela maldita TR (vocês não vão lembrar dessa).

Em 1996, tirei o título eleitoral. Já estava viciado. Eu, não o título.

Sim, viciado. Em Horário Eleitoral Gratuito — ainda que não tenha vendido nenhum eletrodoméstico para comprar uma dose (menos ainda a bendita TV).

Assistia tudo junto com meu pai, logicamente. A propaganda eleitoral de então era muito mais divertida do que a atual, embora menos republicana por parecer mais uma briga na minha vizinhança, na periferia de Belém , de tanta baixaria e afrontas. Um humorístico de péssima qualidade, perfeito para nós que exigíamos tão pouco dos roteiros e atuações.

Em meio às risadas e caricaturas de paletó e gravata, apareceu um professor sindicalista na eleição para prefeito . Era Edmilson Rodrigues, do PT, partido do Sapo Barbudo (o perigo para nossa TV estava cada vez mais próximo). O candidato entrou no vácuo da guerra entre Elcione Barbalho (deputada federal até hoje) e Ramiro Bentes (este virou Conceição, ninguém sabe, ninguém viu). Ambos de partidos que se revezavam no poder desde sempre na cidade.

Contudo, os tempos estavam mudando de novo e aquela sequência de xingamentos e revides entre as velhas caras da política local cansaram os eleitores. Edmilson figurou como uma promessa factível longe daquela papagaiada risível e levou a eleição na raça, com uma propaganda baratinha, feita num chroma-key horroroso. Fé no que virá, o azarão dizia com a língua presa.

Sempre tive uma queda para os sem chance, os que estão fadados à derrota, o pessoal do revés. É uma questão de identificação. Numa guinada rebelde, votei em Edmilson. Soterrei de vez o conflito edipiano e expulsei a ideia de que perderíamos a televisão. E, se perdêssemos, seria por um bom motivo. Edmilson não apenas ganhou: fez um governo excepcional, algo surpreendente com um legado real e benefícios para a população mais pobre, nossa gente, afinal.

Daí para frente, cada vez mais estive à esquerda das escolhas. Em 1998 votei, em Lula para me redimir do vacilo de optar por Collor aos dez anos. Lembrei que, no pleito de 89, num desses acasos, passei por um comício com a multidão de bandeiras vermelhas em punho e fiquei seduzido pelo jingle “Lula lá, brilha uma estrela”. Mas, não admitia. Trancava minhas predileções secretas num armário, longe do papai.

Amir Haddad em cena. Foto: Pablo Vergara

Também 1998, conheci Amir Haddad, no teatro, em uma proposta de teatro popular na montagem da peça “Galvez, o imperador do Acre”. O espetáculo foi um fracasso de público e de crítica, porém, mudou para sempre minha concepção de mundo.

Descobri no com o diretor que política, cultura, educação e cidadania estavam interligadas. Convivi com as diferenças e me percebi cidadão e criador. Era um espaço em que homens, mulheres, adolescentes, adultos, velhos e crianças, atores profissionais e amadores, figurinistas, cenógrafos, iluminadores, contra-regras, músicos, malucos de todo gênero compartilhavam a experiência de construir algo juntos. Ninguém ali estava interessado em classes, raças, gêneros, orientações sexuais e todo mundo se respeitava. Tudo era coletivamente debatido a partir das ideias que Amir lançava.

Aquele velho doido e cambota que nos comovia, e hoje é chamado de Rei do Teatro Popular Brasileiro por ninguém menos do que Fernanda Montenegro, nos ensinou a viver e pensar juntos. E mais: a realizar coisas inimagináveis, como colocar uma turba de pobres artistas para ocupar e brilhar no Theatro da Paz, um símbolo da riqueza de poucos e do elitismo cultural numa cidade como Belém do Pará.

Carimbei desse modo minha sina do que hoje é considerado vagabundo e comunista: um cidadão amante das artes e politicamente consciente de suas potencialidades.

Amir está vivo, criativo e feroz, como sempre, com mais de 80 anos. Continua sendo um pai, um ídolo, um mentor — não me venham com mentoria, por favor. Não por acaso é uma das maiores resistências artísticas contra o fascismo instalado no Brasil. De sua trincheira e ninho de fascistas e milicianos com mandato federal, o Rio de Janeiro, o dramaturgo resiste e permanece na rua acordando muitos da ignorância, da intolerância e da caretice.

Pra mim, a experiência foi uma vacina definitiva. Nunca mais optei por aventureiros como Collor, muito menos caí nas soluções fáceis anunciadas pelos iluminados do PSDB. Menos ainda cheguei sequer perto da ultra direita obscurantista e odienta, babosa e trevosa, representada pelo esterco humano que hoje usa faixa presidencial e faz reflexões com o pescoço em eventos públicos com o riso mais falso do que a facada que o atingiu naquele setembro malogrado.

Segui à esquerda, como estudante de universidade federal e, mais adiante, jornalista. Vibrei com Lula, que venceu os tucanos em 2002, e se reelegeu em 2006, envolto a um turbilhão de controvérsias e avanços sociais no país. Em 2010, elegi Dilma, e, em 2014, enterramos Aécio, o caído, apesar de já sentir o clima pesar, já entender que os gases do ódio estavam no ar e, mais ou menos, prever a tragédia que viria abater o Brasil mais adiante.

Em 2018, o pesadelo se consolidou e a esquerda se quedou paralisada: o Sapo Barbudo, convertido em Melhor Presidente da História do Brasil para uns e Líder da Maior Quadrilha de Corruptos para outros, saiu de cena da pior forma possível: preso e impossibilitado de participar da eleição em que tinha quase metade das intenções de votos. Vítima da tramoia hoje revelada em dezenas de matérias do Intercept Brasil, Lula é a prova viva de que a democracia no Brasil não passa de falácia, se a Justiça não proceder de forma igual com todos e lhe oferecer um julgamento justo.

Para nosso desespero, uma política baseada em violência simbólica e física contra os divergentes está em prática, tendo um facínora como líder e alucinados, ignorantes e manipuladores como séquito, com direito a bando armado e milícias digitais.

Mal sabia, lá em 1996, que seria perigoso se declarar como pessoa de esquerda. E que o conceito se ampliaria para qualquer um minimamente sensato, que enxerga e aponta absurdos de um governo psicótico, desorientado e mal intencionado, isto para não dizer coisa pior.

Ou menos ainda: que, pouco mais de duas décadas depois, ser de esquerda no Brasil basta clamar por menos desigualdades sociais e respeito aos direitos básicos do cidadão, como não morrer por ser quem é nem padecer nas mãos de quem deveria proteger a população. Defender o mínimo que um ser humano necessita para ser visto como ser digno de direitos pode configurar ofensa mortal. Não somente a governos. Mas à gente até então tida como inofensiva e pacífica. Os ditos cidadãos de bem, reativos às mudanças à esquerda na América Latina nos anos 2000 e sensíveis às crises econômicas e à lavagem cerebral em rede da segunda década do século 21, se transmutaram em zumbis. Hienas que defendem a violência e o silenciamento como política de Estado, o que estão vidrados em um homem visto como um pária até para líderes políticos mais à direita em todo o mundo dito civilizado.

Meu pai morreu já faz algum tempo, não sem antes dizer que votaria em Aécio Neves, em 2014. Não tenho como prever o comportamento dele no cenário que vivemos hoje. Prefiro pensar que, moderadamente, assumiria o sonho ingênuo de um país que privilegiaria os empreendedores, mesmos os pobres como ele, e votaria no tal Amoedo — tão nocivo politicamente quanto o atual presidente, contudo, com um verniz menos agressivo e mais conciliador. Ou optaria, por geografia e personalidade, pelo Cirão das Massas, nosso Cironé, bem ao estilo que ele gostava e com o sotaque ele cultivava.

Provavelmente, ainda teria medo de perder televisões e ou ver o filho virar um vagabundo de bandeira vermelha nas mãos (inclusive viu, para o seu desgosto de pai afrontado). Temo que, se vivo fosse, estivesse entre os mortos-vivos contaminados pelas mentiras do Zap-zap, com seus kit-gays e mamadeiras de piroca, agenciado pelas robôs de distribuição de desinformação em massa.

Não chegou a saber que o filho está cada dia mais à esquerda, cada dia mais crédulo que é preciso contrabalancear o jogo e surgir algo, realmente novo, no outro lado do que hoje se apresenta. Só que aí é outra história.

O velho não está mais aqui para ver, nem ouvir, que, nesses anos todos, perdemos muito mais que a televisão e a bandeira continua a mesma, hoje com o verde e amarelo sequestrado por uma corja. Já o futuro…

Ah, meu pai, o futuro…

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